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  • Olavo Ximenes

O Que Presta?


“A única coisa que presta é seu pau. Dá vontade de cortar e jogar o resto fora”. Foi bem assim que ela disse. Juro. Ela estava por cima de mim e eu já dentro dela. Não, não estou inventando. Você conhece a Ana, né? Fiquei sem reação. Pelo sim, pelo não, continuei transando como se nada tivesse acontecido. Só que ela queria que eu tivesse ouvido, ela disse para que eu ouvisse, falou alto e olhando em meus olhos. Qual reação procurava? Talvez eu devesse ter broxado, talvez eu devesse ter parado tudo por aí... Ou ter dito: “Veja bem, você ouviu o que você disse?”, ter fechado a braguilha, me recomposto, afetado indignação e ter ido embora. Afinal, estávamos quase vestidos ainda. Transávamos no sofá do apartamento da mãe dela, a mãe havia saído para fazer compras no supermercado. Um pouco da excitação estava nisso. Sei, sei. Bem trivial, mas mesmo assim. Outra fonte de excitação vinha do fato de ser um sexo para fazer as pazes. Que paz, meu camarada. Que paz. “Cortar seu pau”, “a única coisa que presta”. As palavras zuniam em minha cabeça. Já são meses ou anos? Quem sabe? Por que te conto tudo isso tão depois? Talvez para exorcizar esse demônio. Ok, ok, parei! Não vou usar mais clichês. Prometo! Permita-me ao menos um pouco do clichê burguês da psicanálise de revista? Pois bem, como dizia antes, ela ameaçou – realmente? simbolicamente? – me castrar (para seu prazer particular). E apesar disso – ou com isso! – ainda tornei a ficar com ela algumas vezes. É evidente que desde de então ela me tomou pelo o que eu era: um molenga. É bem essa a palavra. Tratou-me com justiça como tal. Gostava de pensar que eu entendia Ana. Pensava comigo: “Ah, ela só não sabe demonstrar afeto”, “Sim, sim, ela perdeu o pai muito cedo, foi traumático”, “nem preciso ser psicanalista para entender a cronologia. Perdeu o pai. Fez tatuagem. Transou pela primeira vez. Primeiro beck (nunca mais parou), segunda e terceira e quarta e quinta e ....e transa. Daí veio o pó (nunca mais parou).” Nem preciso falar do tabaco. Fumava compulsivamente cigarro e maconha e usava doses industriais de pó. Essa era Ana, essas eram suas drogas, essa era a sua cronologia. A perda de um pai pode ser a origem de tanta coisa? Hoje bem sei que não. Mas ser esperto pode custar caro. E eu fui esperto, me achava esperto. Se tem alguma lição de moral nessa história é nunca se achar esperto. No fundo, no fundo, nunca entendemos as pessoas, suas intenções, seus desejos e interesses, não só porque elas mesmas não se entendem, mas porque nós também não nos entendemos. Meu pecado foi achar que eu entendia Ana. O fato era que não entendia a mim mesmo. Tão prosaico, mas brutal. Por que gostei dela? Voltamos aos clichês. Posso só mais um ou dois? O cheiro de sua pele, o sexo – era tudo ótimo. Só que Ana não era ótima. Ela nunca queria conversar. Sabe? Aquela coisa tão menininho: “vamos discutir as coisas?”. Eu confiava demais no poder da palavra, quando deveria ter confiado nos atos e falos – não nos ditos e pudicos. Uma crença tão ingênua, essa na conversa – isso, acho, guardo em mim até hoje. Gosto de imaginar que é um vício de formação. Que ator não gosta da palavra? Oi? Como? Sim, estou entre jobs. Não, não quero falar sobre isso. Quero falar do meu trauma. É...qualquer pessoa consideraria um trauma. Menos eu. Aliás, é você que vai pagar a cerveja, né? Ah, sim, claro, você me convidou. Sei, sei.

Com alguma regularidade ela me destratava. No começo, lá no comecinho já deveria ter desconfiado. Mas não! Eu sou esperto, vou saber lidar com a situação. Pensando agora, desde o começo ela sabia que eu era isso, essa coisa maleável, sem forma definida, pronto para ser empurrado em qualquer direção. Meio ao sabor do vento, meio ao sabor de sua mão. “Quem disse que não sou louca?”, ela me disse mais de uma vez me encarando, tentando apreender alguma reação minha. Como dizia: lá no começo quando ainda havia um certo distanciamento mútuo, quando ela queria falar comigo me mandava mensagem no celular tirando sarro de mim. Sim, é isso. Tirando sarro de mim. Lembra quando eu estava naquela peça escolar sobre Tiradentes e deixei o cabelo crescer? É, aquela coisa toda, cabelo, cabeleira, aquela barba horrorosa e tudo mais. Ela tirava sarro disso. Como eu era esperto imaginava que era só um jeito de chamar a minha atenção, de demonstrar por vias tortas algum afeto. A esperteza mata o idiota. Não, ninguém disse isso antes, acabei de dizer. Fiquemos combinados: molenga, sou molenga.


Mas meu pau era duro. E era isso, com o caixa fechado, o balancete aprovado, a fatura cobrada, que importava. Para ela. E para mim. Sexo nunca é só instinto. Nunca. Fiquei por um bom tempo um cativo feliz, obedecendo ora impaciente, ora protestando a ela.

Nunca conheci seus amigos. Ela gostava de vir para minha casa e se trancar. Nunca saiamos de casa, no máximo eu ia sozinho providenciar o pó, a maconha na biqueira ao lado de casa. Aproveitava e trazia um pouco de cerveja e o cigarro. Ela ficava insuportável sem o cigarro. Não podia falar nada. O que ele fazia? Era psicóloga, trabalha em consultório, em clínica, em empresa. Sei lá, ela me dizia que trabalhava muito. E isso meio que bastava para justificar seus modos.

Como alguém pode ser tão dócil? Ainda não entendo. Teria algo de “lua de fel” nisso? Antes de mim, ela teve dois namorados “sérios”. O primeiro, ela me dizia, só a traia com qualquer ser vivo. Ela chegou a flagrá-lo comendo a melhor amiga na casa deles. Curiosamente não há registro de decepamentos de órgãos masculinos neste episódio. Ela continuo a falar e a se dar bem com o namorado. Já com a amiga, não sei. O fato é que ela ainda conversava com o primeiro. Mais pragmática, com o segundo namorado (que ela roubou de uma fulaninha), ela adotou o padrão “amor livre”. Que todo mundo comesse quem quisesse, incluindo ex namoradas e namorados. Ela não parava de falar desse cara. A todo momento me comparava com ele. Ah, sim, chamava a mãe do sujeito de sogra. Como dizíamos, sou molenga.

Meu pecado foi ter um pinto duro e uma alma molenga.

No fim, quando não se acaba um conto, ao menos se indica ao leitor o caminho desejado. Imagina-se que um pênis mumificado (do interlocutor A) era usado no intercurso sexual com o molde de gesso de uma vagina (da amiga do episódio do namorado I). Mas isso seria demais para esse espaço.

Olavo Ximenes

oaaximenes@gmail.com


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