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  • Acauam Oliveira

Samba de invenção (mixtape)


Seguindo as comemorações do centenário do samba, mas uma mixtape de primeiríssima linha, agora bem aos estilo do Esquisito Rádio Clube.

O samba no geral tende a ser associado a tradição, a comunidade, aquilo que permanece no tempo. De fato o gênero é fortemente marcado por imagens de pertencimento comunitário com a qual os artistas se relacionem de forma produtiva. Contudo, como nos mostra o belíssimo artigo de Bernardo Oliveira publicado aqui no CHIC Pop, o samba é feito sobretudo por artistas criadores que inventaram novas maneiras de criar ao longo de sua história, renovando a tradição para perpetuá-la. É da sua abertura para o presente que vem o alto teor de vitalidade do samba.

São diversos os gênios criadores do samba ao longo da história, e nessa playlist fizemos uma pequena seleção para dar conta da inventividade do gênero, tanto entre aqueles nomes considerados mais "tradicionais", como Clementina de Jesus e Paulinho da Viola, quanto entre os que já são considerados renovadores (ou mesmo deturpadores), como o pessoal da Bossa Nova.

Segue abaixo a relação das músicas, com uma ligeira explicação para cada escolha.

1) Nem é bom falar (Ismael Silva). A turma do Estácio mudou a célula rítmica básica do samba para se adaptar aos novos tempos de avenida.

2) Gago Apaixonado (Noel Rosa). Um samba impagável que simula um cantor gago. O humor serve de base para muitos dos experimentalismos do samba, sobretudo em seus primórdios.

3) Bambo de Bambu (Donga). A dupla humorística Jararaca e Ratinho deita e rola nesse modelo de composição que explora a habilidade vocal dos intérpretes, criando resultados bem interessantes.

4) Chatanoga Chou CHou (Carmem Miranda). A ida da Carmem Miranda para os EUA inspirou diversos compositores a tentar aproximar o samba de estilos norte-americanas. Esse aqui é um exemplo interessantíssimo.

5) Touradas em Madrid (Almirante). Clássico das marchinhas, que também são frequentemente espaços de experimentação da linguagem musical via humor. Aqui o aproveitamento da pegada ibérica é irretocável.

6) Tem francesa no morro (Assis Valente). Ainda em clima de teatro de revista, mais um samba humorístico, agora em francês esculhambado.

7) Quem dá mais (Noel Rosa). Ao mesmo tempo que é um dos responsáveis por firmar o samba como linguagem nacional, o sarcasmo corrosivo de Noel derruba um a um, com doses de crueldade, os mitos nacionalistas que ajudou a consolidar. Nesse leilão metalinguístico, é notável sua habilidade de transitar entre fala e melodia, criando uma estrutura híbrida que irá marcar a música brasileira pra sempre.

8) Cabritada mal sucedida (Geraldo Pereira). O samba sincopado de Geraldo Pereira, terreno em que intérpretes primorosos como Cyro Monteiro (e Zeca Pagodinho) deitaram e rolaram. Nesse samba o próprio Geraldo interpreta a canção de modo a realçar bem o caráter quase falado da segunda parte.

9) Camisa Amarela (Ary Barroso). Das vozes femininas Aracy de Almeida era uma das mais inovadoras. Aqui podemos ouvir o quanto ela incorpora da bossa da turma do Estácio para interpretar esse samba clássico de Ary Barrroso.

10) Uva de caminhão (Assis Valente). Outro exemplo da criatividade rítmica de Carmem Miranda, valorizada pela preciosa construção melódica de Assis Valente.

11) Morengueira contra 007 (Moreira da Silva). Um dos mais criativos intérpretes da história do país, em um tipo de "samba cinematográfico" que, aliado ao estilo sincopado da composição, não encontra correspondentes na história.

12) A preta do Acarajé (Dorival Caymmi). Caymmi não fazia canções, e sim pequenas jóias. Desenvolvia narrativas musicais plenas, nas quais o samba adquire centralidade. Sua estilização própria e originalíssima do samba de roda baiano influenciaria grande parte da música brasileira moderna.

13) Rapaz de Bem (Johnny Alf). Antecipando algo das inovações da Bossa Nova, Johnny Alf faz um samba bastante próximo as harmonizações e vocalizações jazzísticas.

14) Eu quero um samba só pra mim (Janot de Almeida). Ainda nessa linha em que as inovações migram do campo do canto-falado para a melodia musical, temos esse sensacional arranjo dos Namorados da Lua para a música de Janot de Almeida.

15) O pato (João Gilberto). Talvez a única coisa que precise ser dita a respeito desse que é um dos mais revolucionários da cultura brasileira é que é, sim, samba.

16) Samba do Avião (Tom Jobim). De todas as escolhas possíveis, escolhi samba do avião pela beleza das variações melódicas aliada ao desenvolvimento harmônico do piano. Diferente de João Gilberto, para quem nada se sobrepõe ao conjunto racionalizado da obra, Jobim não tem pudores em fazer o piano conduzir a cena.

17) Canto de Xangô (Baden\Vinicius). Aqui a bossa experimenta um pouco mais de agressividade e menos firula. Conduzido por Baden, é um dos momentos mais criativos da nossa canção.

18) Influência do Jazz (Carlos Lyra). Aqui as experimentações do samba em termos estruturais chegaram longe, sendo inclusive ironizado pelas próprias composições, como nesse samba jazzístico nada sutil de Carlos Lyra.

19) Só o ôme (Noriel Vilela). O samba rock é a versão eletrificada da malandragem. Noriel Vilela tem um único e interessantíssimo disco em que tudo é novidade, sobretudo seu timbre inconfundível

20) Linha de Passe (João Bosco\Aldir Blanc). Complexidade rítmica, melódica, e poética são marcas registradas da dupla João Bosco e Aldir Blanc, aqui em uma de suas fases mais inspiradas.

21) Carioca (Chico Buarque) O samba desde cedo faz parte da linguagem musical de Chico Buarque, e todos sambem o quanto ele explorou as possibilidades do gênero com elevado grau de consciência. Aqui trazemos um samba de sua fase mais recente com estrutura mais "quebrada".

22) Roendo as Unhas (Paulinho da Viola). Paulinho é um dos mais tradicionais e respeitados compositores de samba da história, e parte de sua grandeza deve-se justamente a sua capacidade de inovação e desejo de abrir novas possibilidades. Roendo as unhas é um belíssimo exemplo dessa versatilidade.

23) Tataratá (Clementina de Jesus). Outro nome tradicionalíssimo no meio do samba, e que não tinha medo de experimentar e arriscar, é o de Clementina de Jesus. Aqui podemos notar sua grande capacidade de explorar diversas variações timbrísticas (que irão influenciar nomes como João Bosco), na contramão de muitas das cantoras de timbre só da atualidade.

24) Ma (Tom Zé). Tom Zé se aproximou do samba em diversos momentos, dedicando um álbum inteiro (genial) ao "estudo" do gênero. Essa é a faixa de abertura do "Estudando o samba". Simplesmente.

25) Folhas Secas (Nelson Cavaquinho). Tudo em Nelson Cavaquinho é surpreendente. Seu violão, sua voz, o tema de suas canções. Em suma, nada em seus sambas soa convencional.

26) Disritmia (Martinho da Vila). Martinho é um mestre do partido e do samba-enredo, e ao longo dos anos 1970 compôs vários tipos de samba. Disritmia é um primor de composição, com a organização "torta" de suas estrofes e termos como "transfundir" , "hipnotizado" e "exorcizado".

27) Espelho (João Nogueira). Muito já se disse da dicção sincompada de João Nogueira, com versos que mal cabem nos tempos do compasso. E nessa canção para seu falecido pai ele obtém um de seus desempenhos poéticos mais interessantes.

28) Piove (Adoniram Barbosa). Em termos de originalidade não poderia faltar o nome de Adoniram Barbosa, que em 1975 compôs esse divertidíssimo samba à italiana, bem macarrônico.

29) Serrado (Djavan) Nem todo mundo se lembra que Djavan começou tocando principalmente sambas com levada cheia de swing. Serrado é um excelente exemplo de sua qualidade.

30) Muambeiro (Grupo Raça) O pagode que emplacou nos anos 1990 não tinha grandes pudores em aproximar-se das mais diversas linguagens. Aqui temos um exemplo interessante de samba afro-caribenho.

31) Vestida de Doida (Art Popular) . O Art Popular é o mais interessante grupo do chamado pagode romântico paulista. Em "Vestida de doida" eles propõem uma ótima e inusitada aproximação entre o samba e a música flamenca.

32) Maria da Vila Matilde (Douglas Germano). Finalizamos nossa lista com alguns sambas da novíssima geração de São Paulo, que nos últimos anos viu um reflorescimento dos sambas de comunidade. Douglas Germano é um dos mais interessantes nomes atuais.

33) Lúcia (Rodrigo Campos) Outro nome paulistano forte é o de Rodrigo Campos, do qual destacamos esse belíssimo samba.

34) Pra Fuder (Kiko Dinucci) É de Elza Soares um dos melhores discos das últimas décadas. Quem não conhece corra agora pra ouvir a Mulher do Fim do Mundo, que é um dos trabalhos mais importantes da música brasileira em anos. Dele destacamos esse samba poderoso composto por Kiko Dinucci.

35) Luz Negra (Nelson Cavaquinho). Pra finalizar, uma versão agressiva e dissonante da obra prima de Nelson Cavaquinho, na visão perturbadora de Rômulo Fróes e Criolo.

#música #AcauamOliveira

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