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  • César Takemoto

Trump e o fim dos cupcakes


A força de Trump é justamente a sua baixeza absoluta. É impossível insulta-lo, pois não é possível degrada-lo mais. Essa é sua blindagem: uma espécie de cabide onde todas as identificações obscenas podem se pendurar para a profanação do espaço político, das instituições "que não mais nos representam".

Por ocasião dos atos de insurreição em Londres, 2011, seguidos de uma campanha cívica bizarra denominada pela hashtag #riotcleanup, Tom Whyman traçou uma importante distinção entre a criança e o adulto infantilizado. Quando uma criança faz criancices, por assim dizer, ela o faz como uma forma de explorar o mundo, uma exploração que irá equipá-la para, um dia, confrontá-lo como uma adulta. A criança seria assim esse modo de ser aberto à possibilidade: seus dedos estão quase sempre melequentos, sua boca suja de doce, seus joelhos ralados... É em especial pelo fato de viver as próprias possibilidades de maneira intensa que ela faz coisas que os outros, os adultos, pensam ser o contrário de seus interesses. De modo que, seguindo o argumento do jovem filósofo inglês, para que nós, adultos, deixemos de ser infantis, nós devemos paradoxalmente nos comportar como crianças. Por que? Porque o adulto infantilizado, em sua tentativa desesperada de querer continuar a ser criança e a viver na Terra do Nunca, fecha-se neuroticamente às possibilidades da vida.

Poucas coisas podem ser mais infantiloides do que um cupcake. Esse pseudobolo é a expressão mais acabada dessa falsa criança em forma de adulto, ou vice-versa: bonitinho, clean, seco, polido, preciso, uniforme, com baixo teor de gordura e levemente nostálgico de alguma coisa. Ou seja, uma expressão perfeita da anódina hegemonia liberal que até pouco tempo vigia e que, a seu modo, impunha às crianças mal educadas que teimavam em comer bolos e doces de verdade uma bela de uma cara feia, lições de dieta saudável e leves reprimendas, enquanto, na forma de seus pais, limpava toda aquela sujeira no chão e nas roupas. A campanha #riotcleanup, devidamente encaminhada pelo Twitter, convocava os "cidadãos de bem" – os "adultos" – a descer de seus apartamentos com vassouras para literalmente varrer os efeitos da raiva dos insurgentes, tudo é claro circundado pela demonização costumeira da mídia, que reduzia esses jovens – as "crianças" – a baderneiros e saqueadores - qualquer semelhança com os cidadãos de bem brasileiros que tomaram as ruas para limpá-las do lixo vermelho é mera coincidência.

Antes de entrar, portanto, no assunto que nos toca mais de perto (eca!), a eleição de Trump, seria interessante lembrar que aquilo que nesse mundo de hegemonia liberal mais se aproximava do "fascismo" ­– significante mais do que suspeito, a ele retornaremos – não eram os baderneiros que saqueavam lojas, quebravam vitrines e incendiavam carros. Se existe uma "coisa genérica" do fascismo, essa coisa se exprime necessariamente por meio de formações majoritárias, de modo que, ainda seguindo Whyman, não era pelo militarismo ou pelo racismo que passava a corrente marítima do reacionarismo, mas pelo engajamento descolado, fofinho, até mesmo hipster, if you like, que esconde a sua brutal violência numa embalagem – para citar a Clara de Aquarius – "vintage", "passivo-agressiva".

Em que consiste essa violência? Em fechar as possibilidades, é claro. Limpar, cortar os excessos, estilizar e, palavra mágica, gentrificar. Ora, se o fascismo é uma forma de resposta para uma crise, ele é o oposto da radicalização e se alimenta das possibilidades dela, fechando-as. No caso inglês a que estamos nos reportando, varrendo-as para debaixo de um tapete que será levantado, no nosso momento histórico, por ocasião do Brexit e da eleição de Trump. Tapete que, visto pela nossa cara de surpresa, escondia muito bem essa sujeira toda. Daí a insuficiência e o cinismo liberal em imputar o fascismo ao candidato republicano. De certa forma, foi o liberalismo que chocou o ovo da serpente, e não chocou sentado, mas mobilizando em grande escala (e é bem capaz que, como na cena final de O bebê de Rosermary (Roman Polanski, 1968), apesar do horror inicial em ter parido o filho do próprio Demônio, a frágil mãe acabe reconhecendo o pai e amando o filho). O racismo que os liberais imputavam a Trump, a despeito de imputarem acertadamente (no plano do enunciado), era um reflexo de um olhar que se coloca a priori na posição (de enunciação) superior e inabalável, a qual só resta desprezar o outro.

Se as plataformas que parecem unir tanto o Brexit quanto a campanha vitoriosa de Trump são a xenofobia e a globalização, é nesta última que a viravolta entre esquerda e direita é sensível a olhos nus. Pois todos nos lembramos como durante os anos 90 e 2000 as visões antiglobalistas vinham principalmente da esquerda, tanto a do Norte quanto a do Sul. De lá pra cá, foi contudo a esquerda (neo)liberal que melhor se adaptou às novas ondas de cosmopolitismo, com inovações tanto no campo do feminismo, do campo queer e da administração de demandas sociais. O resultado, porém, e para o que nos interessa aqui, foi o progressivo enfraquecimento e alienação institucional da classe trabalhadora branca e masculina. Na reinvenção multiculturalista do protagonismo e na sua capacidade de "sustentar grandes coalizões" progressistas, como afirma Rafael Cariello em reportagem sobre Martin Wolf, sobraram aqueles que um dia, quando os westerns e os noirs eram gêneros populares, haviam sido os protagonistas da história, mas não tinham mais lugar, como um brinquedo abandonado de Toy Story. Na máquina de incluir gente e atender demandas em que se converteram os governos liberais do período, os preteridos faziam encher seu poço de ressentimento e ódio. O que a eleição de Donald Trump e o opção pelo Brexit demonstram é que tanto os democratas quanto os republicanos, nos EUA, tanto os trabalhistas quanto os conservadores, no Reino Unido, não estão conseguindo atender a uma insatisfação e a um ódio que crescem a perder de vista e que está disponível para todos os tipos de mobilização, inclusive à esquerda.

A estratégia de Trump é o bullying, uma tática que julgávamos ser juvenil mas que encontra hoje, com a deterioração do espaço público e do campo do simbólico de maneira geral, em ascensão. Aqui, como no caso dos fascistas cupcake, trata-se do mesmo fenômeno de regressão mental e cognitiva, uma infantilização de ganho narcísico imediato e fôlego curto, que se alimenta aliás da destruição do mundo das regras e regulações politicamente corretas do campo liberal. Ao desrespeitar as regras do jogo político engessado em que se tornou a democracia mais longa e consistente do Ocidente, Trump se capitaliza politicamente alimentando a fantasia da exceção do homem branco, acima e fora da lei mas por isso mesmo dependente dela. O típico gângster manda chuva que precisa da lei e da ordem para melhor acomodar sua desordem, gozando dentro e fora delas. Basta ver que, já em seu primeiro discurso após a vitória, ele acena para "a grande adversária e os valorosos trabalhos que ela já realizou pela nação", restaurando portanto as normas políticas (pra não dizer de decoro) que ele sistematicamente violava.

A força de Trump é justamente a sua baixeza absoluta. É impossível insulta-lo, pois não é possível degrada-lo mais. Essa é sua blindagem: uma espécie de cabide onde todas as identificações obscenas podem se pendurar para a profanação do espaço político, das instituições "que não mais nos representam". Nas palavras de Thomas Frank, "a mulher que constantemente nos asseguraram ser a candidata mais qualificada de todos os tempos perdeu para o candidato menos qualificado de todos os tempo". E mais: perdeu apoiada em peso por uma mídia que estava toda a seu lado, repetindo cantilenas nauseantes sobre a sua nobreza e elevação, numa complacência arrogante, orgulhosa e profissional.

É desolador admitir, mas foi Trump quem veio quebrar e profanar a consenso liberal multicultural em que vínhamos vivendo, e portanto há mais verdade histórica nele do que em sua adversária.

Pois quem resiste a uma junk food depois de anos de dieta macrobiótica? Que venham as verdadeiras crianças profanadoras.

#CésarTekemoto #política

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