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  • Bruno Galindo

A imagem contemporânea e seus corpos políticos


A seguinte coluna pretende-se análise breve da captura e ressignificação de imagens políticas contemporâneas, no Brasil (usando, ainda, exemplos de outros países da América e também da Europa), a partir de três episódios recentes no país, expostos na seguinte cronologia: ocupação do complexo de favelas do alemão por forças de segurança dos três níveis, em 2010; os eventos ocorridos em junho de 2013; e as recentes ocupações secundaristas em escolas públicas pelo Brasil.

Movimentos da imagem

O eixo de análise que unirá os três episódios acima citados tem, por premissa, o caminho da imagem (fotográfica, cinematográfica e jornalística), no Brasil, desde quando serve de moldura aos corpos negros subjugados pelo Estado, até se transformar, por efeito de disputas, em veículo que reposiciona estes mesmos corpos agora insurgentes contra a ordem imposta. Vale sublinhar que não haverá aqui qualquer intenção de politizar discursos alheios nem propor teses sociológicas descoladas. O que delineia o caminho deste texto é mesmo a curiosidade a respeito de tais eventos enquanto fenômenos imagéticos contemporâneos.

De início, convém pensar como se deu, na última década, certa mudança no tempo das imagens. Não apenas sob a perspectiva de veiculação, mas, também, e principalmente, no processo de leitura imagética destas mesmas imagens pelas plateias. No cinema, por exemplo, é notória a gradativa transformação dos processos de montagem em sincopes de imagens fugidias que, recortadas como se na faca, definem a estética das narrativas de guerra, de episódios traumáticos. A questão é que se o transtorno interpretativo causado pela sincope das imagens pode ter valor narrativo ao traduzir a força dos traumas, a exemplo de filmes como “Z” (Costa-Gavras) e “Domingo Sangrento” (Paul Greegrass), esta mesma imposição à imagem servirá, dentro de narrativas jornalísticas determinadas, como mote para a amplificação imagética de um discurso formal ultraconservador germinado na comunicação brasileira desde o apoio editorial da Rede Globo à Ditadura Militar no Brasil, em 1965.

Não que haja cinema isento, não acredito nisso, mas são as narrativas jornalísticas de um Jornal Nacional, por exemplo, aquelas abertamente mais manipuladoras, tendenciosas e alarmistas que qualquer outro veículo de comunicação no Brasil. O que, por fim, tende a alienar o olhar, uma vez que, sabemos, o alcance de um veículo como o mesmo Jornal Nacional seja massivo. É esta tendência inicial que define como objeto de estudo a cobertura midiática da ocupação do complexo de favelas do alemão, no Rio de Janeiro, em 2010. O olhar midiático para o episódio era, e ainda é, um olhar alienador.

Complexo do Alemão, a cobertura midiática e a subjugação do corpo negro

Desde o início das tensões que culminariam num processo explicito de terrorismo de estado e venderia, ainda, ao mundo todo, uma das imagens mais sádicas e violentas das últimas décadas (o grupo de traficantes negros sendo fuzilados em tempo real pelo helicóptero da polícia militar), a narrativa dos grandes jornais se dava pela dinâmica da sincopagem que confunde os sentidos da própria imagem. A isso aliava-se o fato de que, em vários momentos, a voz mesma que tentaria, em outros contextos, dar sentido ao pandemônio, agora, se confundia por opção. Assim, repórter hipotetiza, especula, desorienta. E as imagens se engolem. Justamente porque, a serviço do discurso status quo, essa confusão de sentidos fornece espaço pra que se atribuam, em última instância, outros sentidos desejados à imagem. No caso em questão, tanques, caveirões, viaturas, homens fardados e helicópteros surgiam na tela, signos de um Estado a enunciar luta contra a violência (aqui, um tipo de mal endêmico), a ser liquidada apenas com a ocupação da favela e instituição, neste mesmo território, do símbolo soberano de qualquer (neo)colonização: a bandeira nacional.

A disputa pela ocupação do território entre a máquina política e as pessoas vivendo ainda às margens desta teria fim, no caso do complexo do alemão, somente na supracitada imagem que rodaria o mundo inteiro. Naquele momento é como se a sincopagem das imagens anteriores criasse a premissa da narrativa para que então, a última imagem, a única mais extensa e ilesa, fosse sua lição de moral. Lição esta, no caso, de que o corpo negro está subjugado ao poder do maquinário desenvolvimentista branco. Os traficantes feridos em tempo real são a construção de uma imagem determinista que repreende identidades, assim como qualquer insubordinação ou desajuste, da maneira mais definitiva, oferecendo, sem qualquer polimento, ao olhar do país inteiro, o corpo negro sendo exatamente o que é: um corpo. Corpo este que, numa dinâmica social de relações contratuais racistas, burocráticas, trabalhista exploratórias, não vale de nada, não possui vida. Assim, por exemplo Amarildo, trabalhador, pai de família, periférico e marginalizado, é monstruosamente torturado por policiais militares e torna-se o “envolvido com pessoas do tráfico”. Cláudia, mulher negra, periférica, com história, com memória, com sonhos, é arrastada presa ao para-choque de uma viatura da polícia e torna-se “a mulher arrastada pela viatura da polícia”.

É só a partir de junho de 2013 que estes mesmos corpos, mesmo que ainda vilipendiados e jogados às hienas, passam a ser agentes vívidos centrais nas disputas políticas e imagéticas extremamente tensas e fundamentais que se atomizariam a partir daquele momento.

Junho de 2013: o reposicionamento dos corpos na disputa da narrativa imagética

Chegamos então a junho de 2013. O famigerado. Surgem, aqui, as primeiras imagens que, desarticulando a narrativa hegemônica da sincopagem cega, aponta nos corpos, diretamente, uma narrativa de embate político, ainda que desprovida, até então, de discursos políticos sólidos. Junho de 2013 é, antes de tudo, um fenômeno dos corpos. Majoritariamente, os registros do período são registros do aparato repressor do Estado soterrando o corpo e a carne das pessoas coordenadas e condenadas por este mesmo estado. As fotos e vídeos de spray de pimenta nos olhos vermelhos de manifestantes, das marcas de bala de borracha na pele e nos mesmos olhos, das faces cobertas por panos enquanto o corpo se projeta contra as vitrines, os escudos, os muros e, por efeito último, contra outros corpos, marcam a insurgência daquelas e daqueles a quem o aparelho repressor do estado tanto violentou.

E talvez surja dessa relação também a maior problemática a respeito de 2013: a distância da imagem, por mais gráfica que fosse, não dava dimensão da disputa corpórea começando a ser estabelecida ali. E se há cooptações seguintes por forças conservadoras contemporâneas, tal fato se dá, arrisco, por, naquele momento, o domínio sobre a organização de sentido das imagens ser ainda dos grandes veículos de comunicação do Brasil. A medida em que a autonomia da informação oferece espaços para ressignificar os corpos e as imagens construídas a partir destes, novas interpretações, deslocadas do campo conservador, começam a surgir e amadurecer. A copa do mundo de 2014 só faz potencializar estes espaços que, por fim, surgirão essencialmente como premissa da onda de ocupações secundaristas nas escolas públicas brasileiras.

Porque a nova conciliação das imagens e corpos, espontânea como é, cria um grifo político importante: a reinterpretação das imagens de conflitos produz, cada vez mais, a noção de que as pessoas (a juventude brasileira marginalizada, no nosso caso), são agentes de sua própria história. E, acima de tudo, podem alterar os caminhos da mesma história. Por isso o espanto em alguns campos da esquerda, aliás: a ausência de aparelhamentos assusta porque não reconhece qualquer aparato além de uma dialogia (e de uma dialética, por que não?) explosiva e implosiva ao mesmo tempo. Não à toa um dos principais marcos do movimento secundarista foi a criação de um canal virtual de notícias sobre as ocupações (Canal Secundarista), gerido pela própria militância. Porque, hoje mais do que nunca, e essa juventude sabe disso, não haverá qualquer transformação profunda nas sociedades sem a disputa pelos espaços de comunicação, que passa, necessariamente, pelo uso do corpo como objeto político de exaltação da imagem.

Ocupações secundaristas, o corpo enquanto agente da história e a disputa pela comunicação

Foi no colégio Fernão, escondido numa travessa da Brigadeiro Faria Lima, novo polo comercial expandido de São Paulo, que a principal ocupação secundarista (em termos midiáticos, ao menos) organizou, mesmo que indiretamente, o discurso dos corpos políticos, efervescido também por movimentos sociais mais amplos, recentes e fundamentais, de natureza semelhante às ocupações secundaristas, a exemplo do Ocupe Estelita, em Recife, e dos acampamentos do MTST nos fundões da capital paulista.

Aqui, uma observação importante: apontar o corpo como agente primeiro da disputa política e a imagem deste corpo como eco do discurso imagético, não significa, absolutamente, descartar que existam, sob a narrativa pragmática, construções de projetos políticos que ultrapassem, gradativos, a disputa pontual. Jovens de 14, 15, 16 anos não escudariam na própria pele estilhaços de gás lacrimogênio, nem trincariam nos ossos o peso de um cassetete da polícia militar, caso inexistisse, por trás da conduta e da escolha, um projeto político no qual acreditassem verdadeiramente, não importa o quão utópico. O elo de sentido das imagens e dos corpos que, juntos, rejeitam o modus operandi da estrutura de poder passa a existir, assim, a partir da compreensão de que mesmo a maior das utopias precisa de intervenções pragmáticas que viabilizem sua construção. Revolução não é truque de mágica.

Seguindo, a performance, no sentido de ação direta, não seria efeito estético de uma era das imagens apenas, mas, talvez, a última possibilidade de trazer à luz rupturas necessárias, porém historicamente emudecidas. Neste sentido, se o Estado inviabiliza o compartilhamento de descrenças, se a dinâmica das opressões silencia as vozes, se a burocracia hierárquica dos edifícios políticos beneficia apenas a seus próprios agentes, numa herança de séculos, resta buscar caminho nas disputas que centrem o corpo na nova imagem, e a nova imagem no olhar ainda alienado. Porque a disputa estará, assim, por essência, no campo mais vital à contemporaneidade revolucionária: a comunicação. Basta pensar os episódios em Baltimore, em Londres, em Paris, ou mesmo no Egito até certo ponto. A comunicação é central e o efeito de empatia narrativa dos corpos que se lançam em oposição a signos iguais ou semelhantes é de uma potência ainda pouco dimensionada.

Se a edição do grande jornal recorta da foto os policiais armados, preferindo mostrar apenas os manifestantes presos, subjugados à ordem e ao costume fascista de esfregar rostos no asfalto, por exemplo, a nova imagem é a que informa verdadeiramente quando rompe a narrativa parcial imposta e, veiculada por outras vias (internet), chega à imagem do rapaz com o rosto coberto por panos, trazendo a bandeira preta hasteada no ar e a viatura da polícia (o Estado, portanto), tombada em chamas sob os pés do jovem. Logo, o próprio manifestante, por sua vez, consciente disso ou não, desarticula, a partir de seu próprio impulso, a narrativa imagética de subordinação. Assim, se o Estado quer que estes corpos voláteis se curvem na sarjeta por precaução, parte deste mesmo corpo manifesta a decisão de elevar-se a símbolo maior da insubordinação. Sacrifício que memoriza, muitas vezes, no próprio corpo, suas consequências.

Hoje, a relação entre corpo e imagem contextualiza disputa das mais importantes. O corpo comunica à imagem e a imagem comunica ao olhar. Há, além disso, a opção por um tempo mais estendido das imagens, característica de um olhar detalhista sobre a realidade. A tendência é que, longo prazo, aumentando a veiculação que eduque um novo olhar geral, a lógica se expanda, se descolonize, se rearticule. Disso, duas possibilidades: ou as novas vias de comunicação substituirão definitivamente as antigas, ou as antigas suprimirão a liberdade das novas, como for possível. Temo a segunda. Aposto na primeira.

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Bruno Galindo é mandaquiense de berço e vai improvisando teorias entre filmes e insônias.

#convidado #política

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