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  • César Takemoto

De Barbies sem vagina à Zootopia sem Rei Leão


Eliane Brum, em mais um texto de clareza e consistência crítica exemplar, entre outras coisas esclarece aquilo que Lacan, para o espumar de boca de muita feminista, quis dizer com "a mulher não existe" [la femme n'existe pas]. A mulher, no sentido lacaniano, deve ser compreendida como aquilo que a Barbie aspira a ser: o ideal feminino. "Que modelo de mulher é a Barbie, que reinou por mais de meio século como um ideal feminino a ser atingido? Um que não existe. E não é que a Barbie não exista por ser linda demais, inatingível para pobres mortais com seus genes imperfeitos, mas sim por ser bizarra demais, uma arquitetura que literalmente não para em pé. Segundo infográfico do Rehabs.com, graças a sua cinturinha, Barbie só teria espaço para acomodar metade de um rim e alguns centímetros de intestino. Como o pescoço é duas vezes maior do que o de uma mulher e 15 centímetros mais fino, ela não teria como manter a cabeça erguida. Andar, só de quatro. Se fosse uma mulher de carne e osso, Barbie seria uma anoréxica." Disfarçada como uma amiga mais velha da criança, a boneca historicamente assume na propaganda da Mattel o lugar do Mestre, ou seja, de uma mentora e de um modelo a ser seguido. Uma mentora que vende "um modo de vida e de se relacionar com os outros e com o mundo", qual seja, consumindo. A astúcia do fabricante é portanto apontar um caminho para esse ideal – por definição inatingível, "inexistente" – pelo consumo.

A Mulher é, tanto para os homens como para as mulheres, cindida e faltante, como o Outro. A crença de que Ela exista é uma forma de apagar a barra que marca o sujeito ($) e negar o vazio, a inconsistência do Outro. É por isso que, para Lacan, a Mulher é essencialmente a fantasia do homem. A Barbie ocupa o lugar da Mulher na pedagogia de mercado contemporânea, e é por isso que ela é assexuada. A Barbie não tem vagina, assim como Ken é eunuco, e é assim que eles escapam da cisão e da falta que são inerentes à diferença sexual: pela castração. É esta que garante que o gozo venha do acúmulo de penduricalhos, casas, carros e cabelos, cada vez mais politicamente corretos (promovendo a diversidade étnico-cultural) e numerosos (são mais de um bilhão de Barbies no mundo todo). "O lema da Barbie, afinal, é #VocêPodeSerTudoQueQuiser. Talvez não exista nada pior para uma criança do que a mentira de que é possível alcançar a completude – ou de que é possível viver sem perdas. Ou ainda de que não haverá limites." Como a Mulher é um dos Nomes-do-Pai, ela ocupa o mesmo lugar que a fantasia do Pai Primevo freudiano, de alguém que corporifica toda autoridade e concentra todo o gozo em si, estando além da lei e da função simbólica. Tudo isso dá a ver o quanto qualquer tentativa de fazer da Barbie uma boneca da diferença e da pluralidade só alimenta seu mecanismo perverso, que formata em escala industrial (e com trabalho semiescravo, para variar) as subjetividades (femininas mas não só) hoje: mulheres que, em nome do amor, tentam e querem ser tudo, no esforço de viver a fantasia da Mulher-Barbie. O problema, obviamente, é que a impossibilidade da tentativa as arremessa de volta para o seu oposto, o de ser nada. "A solução errada dada pelo masoquismo feminino é que o sujeito tenta reservar para ele(a) mesmo(a) o lugar que na fantasia do homem seria o de 'ou tudo ou nada'." A solução seria então uma pedagogia em que aprendêssemos que a posição da mulher para o homem não é a de tudo ou nada, mãe ou puta, mas a de ser seu Outro, na inconsistência ou impossibilidade que lhe é própria.

Uma variante dessa mensagem de que "tudo é possível" é há anos explorada pelas produções da Disney sob a injunção "acredite nos seus sonhos". Mesmo esse que parece seu filme mais progressista, o recente Zootopia, repete a injunção na forma de uma coelhinha que quer ser policial – uma função "naturalmente" reservada para mamíferos menos meigos – a primeira da história de Zootopia, uma metrópole utópico-multiculturalista de mamíferos falantes. Desacreditada apesar de toda a sua garra de principiante, Judy terá que desconstruir todos os preconceitos (incluindo os seus próprios) para solucionar o desaparecimento e, depois saberemos, "enlouquecimento" em série de animais. Tendo solucionado o caso a contento, o desenho contudo nos indica a maneira com que ela é bem sucedida: aliando-se e sendo apadrinhada pela ilegalidade mais explícita (do raposa espertalhão que vai lhe ensinar as "malandragens" da rua à máfia à la Don Corleone). A estrutura de whodunnit posiciona a coelhinha naquela que é o lócus por excelência da força de lei contemporânea, a polícia, aquele que para assegurar a lei deve necessariamente infringir a lei.

Animais que falam e constituem sociedades são uma constante nos desenhos animados – e desde sempre o foram nas mais diversas tradições narrativas –, mas há em Zootopia uma referência explícita à passagem do selvagem ao civilizado. Aqui, os animais, tendo ao longo do tempo conseguido adquirir a capacidade de reprimir seus impulsos destrutivos, sublimando-os em força socialmente produtiva, também seguem o esquema delineado por Freud em Totem e tabu, no qual um pai primevo (que aqui poderia ser o prefeito leão) mantém seu domínio pela força pessoal sobre os outros, sendo substituído, uma vez morto pela comunidade fraterna, pela lei. O mal que a coelhinha Judy tem que enfrentar diz respeito a um número crescente de mamíferos predadores que, inexplicavelmente, voltam a se comportar como selvagens, devorando suas presas naturais e competindo com seus iguais. O que ela descobre, contudo, é o plano de um criminoso (o animal eu não vou revelar e constitui uma das várias delícias lúdicas do filme...) que escolhe e faz regredir os animais "naturalmente" carnívoros para o seu estado selvagem, manipulando assim a opinião pública majoritariamente herbívora (e portanto presas também "naturais") do perigo que corre, de modo a capitalizar politicamente o seu medo. Assim, animais que ancestralmente foram predadores não podem mais ocupar postos de destaque e são constantemente vigiados pela maioria inocente/subjugada/presa. O vilão é portanto uma figura consumada do perverso, pois quer fazer valer a sua lei anterior a qualquer lei, ou por outra, manipular a lei apelando para a própria "natureza" das coisas, gesto ideológico por excelência, o que dá ao filme um brilho desmistificador próprio.

Não é necessário lembrar que animais de desenhos animados também tentam escapar da cisão da diferença sexual pela castração típica dos bichos de pelúcia. A fantasia inconsciente de um órgão que não é visto, mas que é por isso mesmo fantasiado, não se limita a fantasia infantil e aparece em paranoias muito difundidas sobre mensagens subliminares (e não é porque as paranoias sejam fundamentadas que elas deixam de ser paranoias...), como a da palavra "SEX" que se forma com pó no ar, em O Rei Leão (dir. Roger Allers e Rob Minkoff, 1994). Aliás, cabe aqui lembrar os rugidos emitidos por cristãos fundamentalistas em relação ao "homossexualismo" explícito que se pode ver, por exemplo, na dança da agora clássica canção Hakuna Matata, onde se explicita, ao invés da irmandade que mata o pai e institui a lei, a irmandade amorosa dos prazeres da vida, sem culpa. Mas ali o que conta ainda é a presença de um rei justo, que reina justamente, e portanto legitima a posição (ideológica) do leão como aquele que naturalmente, ainda que este deva ser "do bem", ocupar esse lugar.

Zootopia radicaliza esses impulsos no sentido de que ali os personagens não apenas podem ser afeminados, baixos, gordos, terem todo o tipo de pele, "tudo o que quiserem ser", independente daquelas que aparecem como suas aptidões "naturais", como podem, numa ironia soberba, decidir serem nudistas radicais que acham absurdo "bicho andar de roupa". E como negar esse "poder ser", se temos diante de nós animais "que andam sobre duas patas, vestem roupas, dirigem carros, vivem em unidades familiares [apesar de ter mais de 200 irmãos, Judy provavelmente respeitaria a lei do incesto em relação a cada um deles...] e, é claro, falam um inglês [português, no nosso caso, porque desenho da Disney se vê dublado!] esperto e perfeito" Assim, uma raposa pode aspirar ser um elefante e assim por diante. A ênfase é essa de que 'por mais difícil que possa parecer, e é, se você realmente deseja uma coisa você pode conseguir'. Não se trata mais da criação de um novo rei, mais fraternal e justo. Trata-se da ética do desejo do sujeito moderno. A referência a O Rei Leão é clara, quando o prefeito leão é preso por ocultar e prender secretamente os predadores regredidos à bestas selvagens. Vaidoso e cioso de sua carreira política, é preso pela força da lei como qualquer outro.

É aqui portanto que podemos identificar claramente a limitação ideológica de Zootopia. Pois toda a sua grandiosa lição de tolerância e respeito às diferença não gira mais em torno da formação de um novo rei, mais apto a governar, mas em torno de uma polícia que deve se renovar buscando auxílio daqueles aparentemente banidos pelas leis, sejam estas explícitas (o criminoso cínico-espertalhão, o gângster familista) ou implícitas (a impossibilidade profissional de uma policial investigadora coelha, ou mulher). A assunção da castração nessa utopia multiculturalista segue a lógica do neurótico obsessivo que, apesar de nunca mentir factualmente, ou seja, no nível do enunciado, trai o seu desejo na própria posição de enunciação. A sexualidade é assim, como no mundo das Barbies, abertamente assumida aqui como falta, a castração aparece como elemento necessário para o ingresso dos sujeitos no mundo simbólico, mas a posição de enunciação dessa pluralidade é feita do ponto de vista da exceção (uma entre milhões de coelhos, a polícia como o fora da lei que faz cumprir a lei): o policial é aquele que vem ocupar o lugar do antagonismo social irredutível (a verdadeira castração para além dos bichinhos e das Barbies), revelando assim ser o complemento necessário para o funcionamento das democracias contemporâneas, aí incluso seus sonhos multiculturais. Enfrentar a polícia, sua lógica e sua função, hoje, significa ao mesmo tempo atravessar essas fantasias de tolerância.

SALECL, Renata. "I can't love you unless I give up". Love and gaze as love objects. Durham/ Londres: Duke University Press, 1996, p. 197.

LAURENT, Eric. "Positions féminines de l'être". La Cause Freudienne, n. 24. Paris: Navarin/Seuil, 1993, p. 108.

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