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  • Jacqueline Moraes Teixeira

Histórias da vida privada ou como usar sua esponja Assolan


Hoje, comecei o dia fazendo uma escolha duvidosa, assistir o programa Mais Você, na Globo.

Quando Ana Maria Braga anunciou o quadro "Dia de patroa", fiquei incomodada e intrigada para ver do que se tratava. O quadro em questão é reservado para que "patroas" inscrevam suas "empregadas" num dia Vip financiado pelo programa.

O quadro começou com apresentação de fotos e a descrição do modo como "patroa" e "empregada" se conheceram.

A mãe de Nena trabalhava para a família de Renata, a diferença de idade entre Nena e Renata é de apenas três anos. Ambas foram criadas brincando juntas. Nena aprendeu logo a chamar Renata de "patroinha", algo que desde sempre estabeleceu entre elas uma estanque diferença de posição de classe, diferença de classe que também foi transcrita na cor da pele, Renata, a "patroinha" é branca, Nena (cujo nome também é Renata) é negra.

Tal diferença de posições foi rememorada por diversas vezes enquanto a reportagem transcorria, pois Nena fez questão de dizer que desde os 3 anos de idade ela sabia que sua sina seria trabalhar para servir Renata.

Enfim, o quadro segue, a equipe do programa chega na casa de Renata que para demonstrar sua gratidão a Nena declara que em nome da dedicação de toda uma vida, Nena merecia ser patroa por um mês inteiro.

Colocada num carro de luxo, as imagens de Nena telefonando para a família são cortadas por intervenções de Ana Maria Braga que diz não entender muito o linguajar que Nena utiliza para se comunicar. Levada para sua própria casa, Nena recebe a segunda surpresa do dia, sua própria empregada negra e uniformizada que passa a receber suas ordens. Agora "patroa" de outra "empregada" negra, Nena sai para seu dia Vip com direito a spa, cabeleireiro e jantar com a família num restaurante gourmet.

Para encerrar o quadro, Nena e Renata retomam suas trajetórias de vida, a segunda reforça a importância da primeira, sua dedicação para com ela desde a infância, Nena mais uma vez discursa de forma emocionada sobre sua clareza desde muito pequena de que sua vida seria trabalhar para sua "patroinha", diz sobre o quanto ama servir e como sua família se mantém graças ao seu trabalho. Para terminar, Nena levanta sua taça de vinho e faz um brinde a sua "patroinha" que lhe proporcionou aquele dia, o segundo brinde vai para todas as patroas do Brasil, e o último para as empregadas que como ela deveriam ter um dia assim também.

A imagem da taça e a música de piano são interrompidas abruptamente pelo Louro José que aparece numa outra parte do estúdio para falar sobre lavagem das louças e esponjas Assolan.

Qual a minha surpresa em ver um programa de entretenimento mostrar a realidade mais crua das nossas relações raciais com tamanha normalidade? Em retratar com um tom louvável e muitíssimo natural a relação entre duas meninas que cresceram juntas, porém, separadas por uma diferença racial, de classe e geográfica? Sei que não devia me surpreender com algo assim tão corriqueiro, que não devia me incomodar com um desfecho tão natural...

Nena e Renata aprenderam cedo qual posição cada uma delas ocuparia, talvez, em maior ou menor grau, isso tenha ocorrido com muitos de nós. Mas quem se importa?

Melhor mesmo e usar a fórmula higienista do século XIX e tentar apagar toda essa sujeira histórica com um pedaço de esponjas Assolan..

#convidado #cultura

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