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  • Camila Dias

Tim Maia e o pó de pirlimpimpim


O jazz é, por excelência, o estilo de música negra aceito pela elite e consagrado pela alta cultura.

Mas eu fui iniciada tardiamente ao jazz - além dos standards que eu conhecia de ouvir em casamentos e formaturas quando criança. Foi só perto dos 20 anos que fui apresentada a discos célebres como Kind of Blue e Blue Train, e figuras como Ella Fitzgerald e Herbie Hancock.

Para mim, uma branquela da zona leste, música negra eram os grupos de hip hop dos anos 90, o (gênio) Michael Jackson e seus hits de todas as fases, de Billy Jean a Black or White, passando por Thriller e seus tempos de Jackson Five e a Tina Tuner dos anos 80 e trilha do Mad Max.

No Brasil, eu cantarolava Sandra de Sá que marcava presença nos programas de sábado a tarde na TV e trilhas de novela, conhecia todas as bandas de pagode e sabia hits de Tim Maia como “Gostava tanto de você” e “Me dê motivo”. E foi também tardiamente que descobri a fase Tim Maia Racional.

Estava em uma festa com um amigo e dançávamos uma música após a outra. Ou melhor, cambaleávamos uma música após a outra. Não, não era pelo estado alcóolico que trançávamos braços e pernas em passos de equilibrista em noite de apresentação de circo – pasmem vocês, nesta época eu nem bebia cerveja, eu conservava aquela mentalidade infantil de que era amarga, como se o benefício da cevada fosse o gosto e não os efeitos que causa. Os cambaleios eram mais uma forma de nos aproximarmos de alguma forma que não entendíamos. Dançávamos perto e longe, indo e vindo, na vontade de nos aproximar e na racionalidade de nos afastarmos. O que acontece quando um pó de pirlimpimpim cai sobre dois amigos que não sabem mais porque riem de forma tão escandalosa daquela piada velha um do outro justamente nessa noite. Ou porque um ficou vermelho com algo que o outro disse. Ou quando você percebe que demorou mais o olhar, além da conta.

Foi durante essa performance na pista de dança que percebi que todas as músicas que tocavam, uma atrás da outra, eram do Tim Maia. Este amigo, então, me contou sobre o disco de 1975 e que ele era parte de uma fase em que Tim havia se envolvido com um grupo que acreditava em coisas como extraterrestres e a cura pelos livros. Não muito distantes do que nós, jovenzinhos estudantes de Letras, pensávamos ser possível.

E para mim, eles podiam acreditar no que quisessem, porque esse foi um dos primeiros discos a me provar que a boa música cura.

Em músicas como "Imunização racional" e "Energia Racional", Tim profetizava sua nova fé e nós, uma nova paixonite.

“Bom senso”, faixa três do disco, tornou-se um hino e levanta qualquer festinha de apartamento. Para nós, os versos “mas lendo atingi o bom senso” significava que estávamos no caminho certo.

A cadência permanente de “Universo em desencanto”, entrecortada pelos metais soul, reproduz em sua letra a fábula fundante da cultura racional e ambas, cadência e letra, tendem ao que é permanente.

Os elementos do soul em forma do piano, da guitarra e da voz poderosa de Tim se encontram em “ You don`t know what I know”, música altamente dançante, símbolo desse disco tão poderoso.

Diz a lenda que Tim deixou a filosofia racional após um coração partido: sua mulher teria se envolvido com um dos líderes da doutrina. Analogamente, eu e o amigo daquela noite, também quebramos nossos corações mutuamente quando percebemos que talvez houvesse algo além da amizade naquela pista e, depois, decidimos voltar atrás.

Mas, assim como a cultura racional segue (dê um pulo no centro de SP aos finais de semana e lá estarão eles com suas placas e textos explicativos), nós também seguimos. Um pra cada lado.

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Camila Dias é adepta do movimento "bailarina sem fronteiras" nas pistas de dança e sabe tocar duas músicas de cor na escaleta. É integrante da @bandaliterária e escreve no @jazmim_escritos


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