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  • Acauam Oliveira

Resposta a Aca, o analfabeto funcional


Vladimir Safatle escreveu um texto respondendo as principais críticas que lhe foram feitas depois da publicação do texto “O fim da música”, inclusive algumas colocadas pelo texto publicado aqui no Chic Pop e na Carta Capital. Abaixo reproduzimos a íntegra de sua resposta, seguida de algumas considerações.

Os alicerces da cidade

Da Folha de São Paulo,16 de outubro, 2015

Por Vladimir Safatle

Semana passada, escrevi um artigo sobre algumas questões ligadas à música no Brasil contemporâneo. Das acusações suscitadas pelo referido, a mais leve era a de que não entendia nada sobre música, a mais cômica era de que eu seria pago pela grande imprensa para desqualificar a produção musical nacional. Entre elas, circulavam alguns impropérios de douta finesse, dignos do Grande Dicionário Arranca-Rabo da Língua Portuguesa ou do best-seller "UFC Acadêmico: Quebrando o Pescoço do Inimigo", sem descuidar de notas de rodapé e citações. Claro que não poderiam também faltar metralhadas classicamente mobilizadas desde a época que stalinistas atiravam no "formalista" Vladimir Maiakóvski a fim de desqualificar a "dificuldade" de sua poesia. Ou seja, para minha não surpresa, estavam lá os velhos "elitista", "ultrapassado", "desconectado da verdadeira pulsação febril das massas". Faltou pouco para não aparecer um "inimigo da classe trabalhadora e de suas manifestações", mas atualmente "adorniano" já basta para tanto.

Dentre as críticas que chegaram até mim, algumas eram realmente interessantes e diziam respeito às modalidades de circulação da produção musical atual. A estas, só tenho a agradecer. Mas a maioria, infelizmente, era contra o que simplesmente não falei nem pensaria em defender. Ou seja, tudo o que se pode dizer neste caso é: desculpem-me, amigos, mas creio que a carta foi postada com o endereço errado. Com sangue nos olhos, não se consegue ler nem texto de jornal.

Em momento algum foi questão de afirmar que a produção musical brasileira atual seria desprovida de qualidade em relação aos "grandes padrões do passado" ou a qualquer coisa que o valha. Nem procurei reeditar o simplismo da saga erudito X popular. Gostaria simplesmente de lembrar o que realmente escrevi: "A despeito de experiências musicais inovadoras nestas últimas décadas [Chico Science e Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Criolo, só para ficar em alguns entre tantos], é certo que elas conseguiram ser deslocadas para as margens [ou seja, o problema era de circulação, não de produção], deixando o centro da circulação completamente tomado por uma produção que louva a simplicidade formal, a estereotipia dos afetos, a segurança do já visto, isto quando não é a pura louvação da inserção social conformada e conformista." Antes, eu dissera no mesmo artigo que o Brasil fora um dos poucos países capazes de extrair genialidade de um sistema musical largamente baseado na forma-canção.

Pode-se dizer que essa noção de "margem" e "centro" seria tributária de um modelo de difusão da produção cultural anterior ao advento das redes sociais. Esse é um argumento válido, seria necessário discuti-lo com calma, o que não é possível no espaço de um artigo de jornal, mas temo que ele seja muito mais um "wishful thinking" do que realidade. Vários são os estudos de mídia a mostrar que o "consumo" de música continua centralizado em dinâmicas brutalmente oligopolistas, repetindo um padrão de radicalização do monopólio típico de todos os setores atuais da economia.

Agora, há algo que realmente falei e que repetiria com todas as letras. Há uma incrível covardia crítica em relação à miséria musical do que circula de forma maciça nesta última década. Citei o funk e o sertanejo universitário por serem os casos mais evidentes. Creio que parte de tal covardia vem do fato de que, mesmo que esta produção seja ouvida em qualquer festa da elite brasileira, mesmo que ela seja o motor da produção da indústria cultural brasileira, que ela embale sem tensão o mundo da integração absoluta, alguns ainda irão querer lê-la como expressão da "espontaneidade popular". Bem, para estes que acham não fazer sentido qualquer crítica da forma musical, que acham que qualquer análise crítica da produção cultural é mistificação de classe, teria muito a dizer, mas insistiria em um ponto: vocês, no fundo, não acreditam que existam julgamentos estéticos, apenas se acomodam a análises sociológicas. Vocês se importam pouco com música, apenas acreditam que as "manifestações musicais da classe trabalhadora" ou congêneres devam ser respeitadas em quaisquer circunstâncias. Vocês sequer se perguntam quão estranho é sua noção de "classe trabalhadora" acomodar-se tão bem à condição de figurante de programa dominical de variedades da Rede Globo. Talvez isso mostre como, para alguns, a ideia de uma arte revolucionária só poder ser feita com uma forma revolucionária perdeu todo o sentido.

Platão dizia: "Não se abalam os gêneros musicais sem se abalarem os alicerces da cidade". O tipo de reação canina ao que escrevi só demonstra que Platão sabia do que falava. Muitos, sem saber, querem deixar os alicerces onde eles sempre estiveram.

***

A resposta é muito boa, a começar pelo “simples” fato dele ter respondido as críticas, posicionando-se e revendo alguns de seus pontos. Acho importante destacar isso porque revela uma postura intelectual de alguém disposto a debater nos espaços públicos, concretos ou virtuais, o que para mim é uma qualidade intelectual admirável, que muitas vezes falta à esquerda acadêmica.

Particularmente concordo com vários pontos do texto. De fato, aquilo que ele chama de “justificativa sociológica” é muitas vezes utilizada ideologicamente, como forma de recuar diante da necessidade de posicionar-se criticamente - seja por “covardia intelectual”, seja por razões de nicho de mercado, como sustentei em outro artigo. Críticos e intelectuais que se recusam a posicionar-se criticamente em relação aos objetos culturais, gerando um clima de equivalência que no fim das contas não se distingue muito dos padrões do mercado, que por sua vez não tem nenhum pudor em classificar a todos.

Safatle mais uma vez responde a acusações fracas e previsíveis, como as de elitismo, ou as que sustentam que ele “não entende nada” de música. Mas a meu ver os deslocamentos mais interessantes com relação ao texto anterior ocorrem justamente quando ele abandona por um tempo a posição de contra-ataque (também importante) para rever alguns pontos de sua argumentação. Ali no terceiro parágrafo ele faz uma espécie de "paráfrase de si mesmo" acrescentando, contudo, um importante parêntesis, que mais do que simplesmente esclarecer o assunto, dá alguns nomes aos bois que trazem a tona alguns nomes próprios que não compareciam no primeiro texto. O simples ato de nomear artistas como Nação Zumbi, Criolo e Mundo Livre já marca uma diferença importante com relação ao artigo anterior, onde basicamente se nomeava apenas Villa Lobos no campo musical, enquanto os demais eram convocados à distância, como exemplos em negativo. Ao que tudo indica, a maior permeabilidade ao diálogo nesse momento permitiu também a entrada em cena de novos atores. Ou vice versa...

Entretanto, acredito que questão principal colocada para o primeiro texto de Safatle continua valendo. Como bem lembrou meu parceiro João, é preciso considerar o texto no interior do debate mais amplo sobre a perda da hegemonia cultural da esquerda, que conduziria a cultura nacional a um progressivo estágio de rebaixamento de horizontes de expectativas, cujo resultado final seria um mainstream cultural igualmente rebaixado. Contudo, mesmo concordando com o diagnóstico, não seria o caso de se perguntar sobre qual a melhor postura a se assumir diante desse novo contexto? Afinal, devemos recusa-lo como um espaço completamente tomado pelo conservadorismo do status quo, ou considera-lo enquanto zona de conflito e disputa pela hegemonia perdida?

Particularmente creio que as perdas são maiores que os ganhos quando se equivale sertanejo universitário e funk a partir do conceito de “rebaixamento cultural”. Pois se há um tipo específico de “rebaixamento” no mainstream, é certo que ele não possui a mesma forma, e as diferenças dizem tanto ou mais que as semelhanças. Ainda que seja verdade que a incapacidade de se fazer críticas formais ao funk, por exemplo, não passe na maioria das vezes de outra maneira de fazer desaparecer os funkeiros “realmente existentes” em nome de um outro-ideal ao qual não se critica por ser mero reflexo narcisista, não creio que a aceitação “culturalista” ou a recusa “formalista” esgotem o campo das possibilidades críticas dentro do UFC acadêmico. Devemos ser capazes de encontrar no interior de obras “não-qualificadas” aquele núcleo negativo irredutível à fantasia ideológica. E para isso precisamos construir um modelo interpretativo voltado, sobretudo, para as zonas obscuras das descontinuidades no interior do campo cultural.

Isso pra não falar daquele verdadeiro ponto fora da curva da tese de 'rebaixamento cultural': o disco Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais. O álbum fez sucesso no mainstream, vendeu na casa dos milhões sem participar dos esquemas de produção e distribuição da grande mídia, tem um modelo estético centrado no imediato da vida na periferia, mas do que na totalidade pressuposta pela canção dos anos 1970 e, por fim, é uma grande obra que, em certa medida, só pode existir porque os pressupostos da MPB deixam de vigorar.

#AcauamOliveira #música

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