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  • Acauam Oliveira e Breno Longhi

A Crítica na Era do Elogio


Carta de princípios do CHIC Pop, Coletivo Historiográfico de Cultura Popular. Quem são, onde vivem, como se reproduzem?

I

Publico alvo: Pseudo-Intelectuais Esquerdopatas

Petrônio ficou famoso durante o reinado de Nero por sua língua mordaz, gosto impecável e vida lasciva.

Os Anais de Tácito contam que “sua língua solta o tornou uma figura popular”, que “ele era um dos escolhidos entre os círculos mais íntimos de Nero e era reconhecido como uma autoridade absoluta nas questões de gosto e da vida luxuosa”. Há dois milênios, o “árbitro do gosto” era uma figura popular e indulgente, com uma língua ferina que não poupava amigos nem inimigos.

Não à toa, o invejoso chefe da guarda de Nero deu um jeito de acusá-lo de traição, levando-o ao suicídio. Os Anais de Tácito contam que, ao invés de uma ocasião solene, o suicídio de Petrônio foi pontuado pela companhia de amigos, por conversas triviais e a leitura de poemas jocosos.

Essa mistura de liberdade, humor, lascívia e pulsão de morte representa o alicerce do ofício crítico que, com seu juízo estético e formal, cimenta o tripé do um sistema cultural divido em partes iguais entre a produção intelectual e artística, o consumo dessas obras e sua inserção em um contexto dinâmico de influência mútua.

Trata-se de um esquema antigo, que já estava em plena operação nos tempos de Nero e ao qual se acrescenta nos dias de hoje uma inequívoca lógica mercantil, que afeta em maior ou menor grau todas as partes envolvidas no processo de criação, consumo e crítica de arte. Por isso, com frequência, a academia lança mão de termos como "pasteurizado" e "inócuo" para definir as obras geradas dentro desse contexto.

Lázaro, por favor, nos ajude a entender: O que é pasteurização?

Para ser pasteurizado, um alimento é aquecido a altas temperaturas e, em seguida, é resfriado drasticamente para eliminar os micro-organismos nele presentes. Ao mesmo tempo em que esse procedimento representa um grande avanço na capacidade humana de produzir e armazenar alimentos, ele tem efeitos colaterais inesperados. Por exemplo, quando o leite é pasteurizado, já não é mais possível produzir queijos finos.

Transposta à arte, a ideia de pasteurização representa uma obra que perdeu seu potencial de vida: Embora não dê diarreia, ela também não tem sabor

Contudo, a cultura de massas no Brasil é muito mais complexa do que sonha nossa vã filosofia, e é preciso ficar atento para não atirar o bebê junto com o leite tipo C da bacia. Por aqui, desde o início, os impulsos criativos de zonas nem integradas nem excluídas emergem no interior da cultura popular com uma suave profundidade que faz dela um dos campos mais relevantes e criativos do país. Embora reproduzindo-se no interior da indústria cultural, ela não se reduz às regras de estandardização, como já sustentava José Miguel Wisnik no período áureo da alta MPB. Sem deixar de levar em conta os comentários gerais sobre a decadência dessa cultura - que são tão antigos quanto a própria cultura - a ressalva continua válida.

II

Público alvo: esquerdistas maconheiros dos direitos humanos

O CHIC Pop - Coletivo Historiográfico de Cultura Popular, não é bem um coletivo no sentido clássico (hoje em dia a galera mal se vê), e nem é, propriamente, historiográfico (acho que um historiador passou por aqui dia desses, mas nem ficou muito tempo). Popular também é usado aqui mais em seu sentido pop-comercial que folclórico, embora isso não seja um equívoco, ajudando a marcar posição em um debate cultural mais amplo. A verdade é que, nesse caso, a sigla precedeu o nome, e de quebra nos deu um mote: o CHIC tinha que ser maiúsculo e grave, como manda a pompa, enquanto o pop viria mais contido e rasteiro, mas não menos fundamental.

Mas se a precisão conceitual não é o forte do nome, tampouco seria justo apressar o veredito de sua inautenticidade. Sua verdade é, antes, um efeito: um punhado de manos, minas e monas a fim de fazer crítica séria da cultura pop. Ou seja, compreendendo-a enquanto portadora e produtora de um conhecimento próprio, irredutível a outras formas estéticas.

Sim, sim, sim. Todo mundo já ouviu isso antes, e não é de hoje. Na verdade, esse papo é tão antigo quanto o modernismo brasileiro. O Tropicalismo usou pra causar geral, e os cultural studies instrumentalizaram definitivamente essa perspectiva. Pois o pós-modernismo é precisamente o momento em que as fronteiras entre alto e baixo caíram por terra. Etc, etc, etc.

Quer dizer, esse papo já tá qualquer coisa, certo? Aí depende...

O que poderia ser mais lógico e auto-evidente do que um estudo sociológico (para não entrar nas questões de forma que interessam ao CHIC Pop) sobre um dos gêneros musicais mais populares entre os jovens brasileiros atualmente? Não está na cara por que é interessante estudar, de maneira séria, o que nessa música atrai tantos jovens brasileiros, ou por que os funkeiros incomodam tanto a ordem estabelecida? Entretanto, essa não é necessariamente uma opinião hegemônica, como atestam os comentários de Rachel Sheherazade, âncora do Jornal do SBT.

"As universidades se popularizaram e, com elas, os temas das teses de mestrado. Num projeto intitulado 'My Pussy é o poder', o funk carioca, que fere os meus ouvidos de morte, foi descrito como manifestação cultural. Pior é que ele é, pois se cultura é tudo o que o povo produz - do luxo, ao lixo -, funk é tão cultura quanto bossa nova. Sinal dos tempos, não é?! A tese da estudante Mariana Gomes abordou também a possível relação entre as divas do funk - do naipe de Valesca Popozuda e Tati Quebra Barraco - e o feminismo . Parece até piada. Com letras impronunciáveis para o horário e que mostram as mulheres como objeto sexual, as funkeiras estão anos-luz aquém do feminismo. O projeto se propõe a estudar tudo isso a fundo. Mas será que o assunto tem profundidade para tanto?"

A despeito de ter saído dos porões mais conservadores do século XVIII, esse tipo de interpretação está longe de se configurar enquanto exceção. Ao contrário, é reveladora de uma dinâmica discursiva que opera mecanismos de poder em prática cotidianamente no país. Nesse caso, a classificação de pop, massivo, popular, etc, funciona como uma espécie de não-lugar, um significante vazio cuja função primária é servir como elemento de distinção social. O pop, nesse caso, é definido a partir do que lhe falta: sem cultura, sem qualidade, sem civilidade, sem coerência, etc. Um objeto vazio que nada tem a dizer. Dentro dessa linha argumentativa, faz todo sentido que a presença do funk no meio acadêmico seja considerado como uma incoerência, uma vez que a Academia é tida como um espaço pleno de Voz, e o funk, o lugar que deve permanecer em silêncio.

III

Público-alvo: marxistas de boutique com iPad

No exemplo acima, a estratégia de silenciamento não se dá no interior dos mecanismos ideológicos dos produtos culturais massificados (que continuam em operação), mas é um processo de ordem externa que se impõe sobre os objetos, a despeito de sua qualidade ou ausência dele. A obra do artista plástico Romero Britto não é considerada ruim por seus aspectos técnicos, formais, etc. Poucos no país são capazes de fazer análise estética de artes plásticas (o que antes de tudo é um problema do próprio sistema local de artes, mais do que do público).

Ainda assim, o ódio por Romero Britto é generalizado, o que o torna significativamente sintomático. Ou seja, torna esse ódio interessante não pelo que revela, mas pelo que oculta em fantasias. Em todo caso, o que interessa aqui não é tanto o acerto ou equívoco do diagnóstico, mas o fato de que sua obra é tornada ruim e de baixa qualidade por meio de um processo de silenciamento que precede suas características propriamente estéticas. Sejam elas boas ou ruins, o poder atua como um elemento que impede a produção de conhecimento a partir dos objetos culturais de massa que, desse modo, permanecem sem ter "nada a dizer" sobre o mundo.

Isso não significa que a cultura de massa não tem espaço de existência no Brasil, que ela, coitadinha, é pouco produzida ou apreciada. Todos nós sabemos e sofremos as consequências de sua onipresença, que muitas vezes submete a arte a uma lógica mercantil que a torna um produto descartável entre outros. O processo de silenciamento exterior coexiste com a produção de uma fala monocórdica de alta intensidade, conformista e conservadora.

Aliás, o processo de silenciamento que identificamos não pretende que essa cultura deixe de existir. As duas lógicas atuam em uma relação de perversa complementariedade, e seu modo de atuação é consideravelmente mais cínico. Sheherazade - e toda a turminha da TFP - não deseja verdadeiramente que o funk desapareça. Tudo não passa de uma grande encenação histérica: eles precisam da cultura de massas, pois seu rebaixamento é o mecanismo por meio do qual se confirma sua "superioridade" ética, moral e loira. A questão aqui nunca foi negar a produção do lixo cultural. Assim como a guerra às drogas sempre foi uma questão de guerra aos pobres, também a patrulha da cultura de qualidade está pouco interessada em elevar o nível cultural do país. Afinal, os maiores lixos culturais que vemos por essas bandas (para ficarmos no mesmo campo conceitual) são precisamente os telejornais da grande mídia.

E por que então esse discurso insiste em bradar que eles pretendem destruir o que, de fato, almejam preservar? Porque o verdadeiro poder consiste na possibilidade de definir os espaços dizíveis e os indizíveis, (cultura x lixo) forjando os instrumentais discursivos que operam essa separação.

É por isso que a ideia de uma tese acadêmica sobre o funk - ou um site que procura compreender esses objetos com rigor, ou seja, sem condescendência, mas também sem “nojinho” dissimulado - assusta essa galera, que recua horrorizada. Tal mistura, desde que não utilizada para simplesmente confirmar o que a academia já “sabe” desde sempre, traz para o campo do dizível o que se afirmava não possuir voz.

Assim, podemos voltar para aquele ponto que parecia óbvio no início - mas cujos sentidos são manipulados pelos mecanismos ideológicos de gestão do poder - e reconhecer que a cultura de massas não é apenas um campo negativo, mas uma zona positiva de produção de conhecimento. Afinal, o que o teor explícito do funk carioca tem a nos dizer sobre a crise da ironia e do humour machadiano em certas áreas do discurso? O que o sucesso de Ai se eu te pego diz a respeito daquilo que Lorenzo Mammi definiu como a era do LP, e o que isso diz sobre um determinado projeto de sociedade que pode ter chegado ao fim? O que o misticismo pop new wave de Paulo Coelho diz sobre a onda fundamentalista cristã atual? De que forma o Big Brother estrutura nossa psique coletiva para o zelo, categoria fundamental de assujeitamente dos trabalhadores ao atual modelo de trabalho precarizado? O que o Programa do Ratinho revela sobre o povo realmente existente, e o que o nacional-popular da TV Cultura e a pobreza pra inglês ver da Rede Globo ignoram?

IV

Público-alvo: Ongueiros amantes de bandidos em geral

Essas são algumas das questões que já passaram pelas mãos ou pelas cabeças do CHIC Pop em algum momento. Todas atravessadas pelo desejo de compreender a cultura pop enquanto produtora de conhecimento, ali mesmo onde ela parece mais submersa e esmagada pelas forças do mercado, reavivando a tensão inscrita no cerne da Indústria Cultural.

Reavivar a tensão, eis o ponto. Isso significa que nosso objetivo é ainda escapar de outro padrão de silenciamento. Diferente do anterior, esse não atua a partir de uma afirmação direta de sua superioridade ética\estética. Ao contrário, fala sem parar em como a cultura de massas é linda, e como todos têm direito a voz num mundo cada vez mais plural. Rasgam-se em elogios. Falam, falam, falam. O silenciamento acontece aqui mediante um processo de dublagem, típico do modelo multiculturalista de aceitação da diferença, entendida como a diversidade que é aceita porque, no limite, não fede nem cheira. Desse modo, um sertanejo universitário ou um funk que celebra a pedofilia ou mesmo o estupro, quando não os dois, são valorizados por fazer parte da cultura “deles”, que é sempre linda porque, evidentemente, “eles” não ocupam nenhum lugar concreto fora dessa representação do discurso de quem os admira como a celebrar narcisicamente seu próprio grau de civilidade.

Por isso, o CHIC Pop irá tomar posição, de preferência à esquerda (sempre que possível), a partir de um desejo sincero e por vezes impossível de efetivamente ouvir o que essa área da cultura tem a dizer. Assim, não teremos vergonha ou medo de ser tachados de "populistas" ao afirmar, quando for o caso, que o Programa do Ratinho fornece mais elementos para compreender a estrutura da sociedade brasileira contemporânea do que a média da produção cinematográfica atual que segue o padrão Globo Filmes. Assim como não temos problemas em ser considerados “elitistas” ao sustentar que a imagem do desejo masculino na obra recente do Chico Buarque é muito mais complexa que a média do funk carioca, revelando dimensões insuspeitas para esse. Mas que por outro lado, no que diz respeito ao desejo feminino - e contrariando a fama de Chico - algumas funkeiras têm muito mais para ensinar, na medida em que, o desejo feminino nas canções de Chico Buarque é quase sempre representado para um Outro masculino. Isso não é dito para diminuir o valor de suas canções, mas sem dúvida relativiza as afirmações de que Chico mergulha em profundidade na alma feminina. Pode até ser, mas sempre a partir dos limites estritos de um outro masculino inevitavelmente presente.

É a mesma mistura de liberdade, humor e lascívia que alimentava a língua ferina de Petrônio que precisa voltar a atormentar o espírito crítico. Sem ela, resta apenas o puxa-saquismo, a sisudez pedante e a insipidez medrosa. Ó musas, guiai-nos em vossos sublimes designíos!

V

Pressupostos metodológicos

O conceito de dialética de Hegel

O conceito de história dos oprimidos de Walter Benjamin

O conceito de vida loka dos Racionais

O conceito de identidade de gênero de Laerte

O conceito de hegemonia de Gramsci

O conceito de crítica pop-terrorista de Zizek

O conceito de conflito de classes em Waldick Soriano

O conceito de sistema de Antonio Cândido

O conceito de mutismo dos oprimidos de Gayatri Chakravorty Spivak

O conceito de humor carnavalizante de Mel Brooks

O conceito de decadência histórica de Vianna Moog O conceito de incapacidade criativa de copiar de Paulo Emílio

O conceito de antropofagia combativa de Adilson Maguila Rodrigues / Mike Tyson

O conceito de discursividade herética de Odair José

O conceito de superação de classes de Trimalquião

O conceito de descentramento da lógica discursiva de Falcão

#Editorial #cartadeprincípios #AcauamOliveira #BrenoLonghi

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