Search
  • Camila Dias

Sobre adesivos, camisetas e posters


​Adesivos na janela, camisetas de banda e coleção de pôsters. Itens que Pedro conservou como símbolos de uma juventude vencida há uns 10 anos mais por orgulho do que saudosismo.

Conservar nem é a melhor palavra uma vez que ela descreve o que acontece com peças de um museu ou coisas obsoletas, uma múmia egípcia bem conservada graças aos saberes da antiguidade ou a conservação do casamento por conta dos filhos.

Os objetos de Pedro eram mais do que isso. Eles eram o símbolo de que ele não estava disposto a emigrar da Terra do Nunca.

Não via motivos, por exemplo, para arrancar os adesivos. Até porque o do Iron Maiden, lado esquerdo, metálico, tinha acabado de ser colado como lembrança do show de dois meses antes. Sim, aquele show que caiu bem no final de semana de plantão no jornal. Por sorte, Pedro foi educado a base de Sessão da Tarde e conhecia todos os truques de Ferris Bueller para matar aula. No seu caso, bastava adaptar o roteiro trocando o diretor da escola pelo chefe da diagramação e ele estaria livre para o bate-cabeça. Na semana seguinte ao show, trocou as camisetas do Iron pelas do Motorhead e até por uma discreta branca básica do Legião Urbana. Mais insuspeito, impossível.

Mas os posters foram sua perdição. A primeira coisa que Aninha botou reparo e sua língua afiada quando esteve em sua casa pela primeira vez. É fato que a língua afiada ele já conhecia dos almoços em que se encontraram na casa da Claudia e do Paulo e do boquete que ela fez ao final de algum daqueles jantares que os amigos promoviam e nos quais o que menos faziam era comer. “Olha, posters de bandas e complexos adolescentes podem ser maravilhosos para essas meninas de faculdade que você ainda pega, mas quer me convencer que faz sentido um cara que passou dos 35 manter essas aberrações na parede? Muito brega! Ainda bem que transo de olhos fechados.”

Desde que Wendy saira naquela manhã ele não sabia porque pensava tanto nela. Na frase, não em Wendy. E porque cada vez que o fazia era como um gancho atingindo seu estômago.

Que ele estava velho para camisetas de banda, um ou outro colega de trabalho mencionara. Mas como achava todos uns nerds desatualizados, repetia sempre “os 30 são os novos 20” e os divertia com alguma imitação do vocalista da vez.

Os amigos viviam dizendo que ele deveria tentar uma relação séria, quem sabe um desses aplicativos em que todos estavam encontrando os amores da vida dos próximos meses. Ele sorria e defendia que não era medo de compromisso: “being single is a personality thing” dizia, como se estivesse sendo entrevistado por David Letterman.

Por que então só agora essa frase, bendita frase, martelava na sua cabeça sem parar? Será que tinha sido o sotaque de menina educada em escola britânica da Wendy que transformava tudo em importante e urgente?

Tomou o café puro que preparara no antigo coador de pano, voltou para a cama onde passara boa parte da manhã e o começo daquela tarde e telefonou. Depois de expressar toda sua angústia, repetir a frase umas três vezes, tentar compreender seu incômodo, decidiu se acalmar.

“Você tem razão, mãe, a Wendy sempre foi meio metida mesmo. Essa coisa de gente que só gosta de bossa-nova, Caetano, Gil, não sei porque me incomodou tanto. Ah, você vem amanhã? Traz aqueles congelados? O último comi ontem. Valeu, véia!”

Desligou e dormiu mais um pouco. Sob os olhares de ninar de seus ídolos.

______________________________________________________________________

Camila Dias é adepta do movimento "bailarina sem fronteiras" nas pistas de dança e sabe tocar duas músicas de cor na escaleta. É integrante da @bandaliterária e escreve no @jazmim_escritos

#musicapornaomusicos #CamilaDias

11 views

Bossa Nova: Nostalgia de um Futuro Possível

24/05/2019

1/10
Please reload