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  • Márcio Nagasaki

Play to the Music: As 15 Estações da Paixão Musical


Há algumas eras alguém chegou a dizer que um dos grandes truques da mercadoria era fazer com que a pura exploração do trabalho social aparecesse como algo naturalmente produzido na fachada encantada do produto. Esse alguém não chegou a conhecer o Rock in Rio, mas em todo caso, acertou na mosca se estava pensando em música.

Talvez mais ainda que no cinema, na música, todas as ilusões da mercadoria têm grau máximo de eficiência. O produto é feito, se não para divertir, para encantar; os trabalhadores são performers naturalmente dotados; o produto passa a dar forma à paixão do cliente; nada depende de estrutura produtiva e sim de vontade e propensão. Etc.

Lógico que, da perspectiva do músico e de quem o contrata, a coisa não é bem assim. Segue então uma rápida passagem pela via crucis do trabalhador-músico (sim, isso existe) tal como ela acontece hoje, ali no bar mais próximo da sua casa:

1. A música serve hoje sobretudo como lugar propulsor e diluidor daquilo que lhe permite existir em espaço mercantil como um resto tolerado. Seu conteúdo é menos relevante que sua forma de propagação. Atravessando fronteiras de língua e linguagem, adaptando-se a contextos múltiplos e criando feixes administrados de afinidade libidinal, ela produz, antes de tudo, costumes, tipos de vestuário, formas de expressão, temperamentos, visões de mundo. Isso chega a afetar também o critério de inserção produtiva. Noutras palavras: candidato a bom profissional não é aquele que desenvolve técnica, linguagem e sensibilidade adequados para construir um determinado sentido a cada situação (todos os três, por isso mesmo, distorcidos) mas sim aquele que veste bem alguma aparência com potencial de difusão.

2. Aqui, como em todo ramo, existe corporativismo. Os que têm alguma educação, trânsito e visibilidade, coisas que se alimentam mutuamente, agem como cafetões, arregimentando braços de ocasião para projetos. Ou então formam bandas fixas feitas de elementos que se tornam como que capangas, triando o campo de seleção logo abaixo, que se transforma por isso mesmo num reservatório de bajuladores. Como essa lógica se reproduz na ordem dos gostos, dos espaços de apresentação e das conjunções afetivo-profissionais, está aí uma das formas como a mesmice de valores e de repertório se constitui.

3. Sobrevivendo, para os músicos e os ouvintes, como um vestígio de contestação e de autoconhecimento, as drogas legais e ilegais ainda estão associadas à música. Sem falar no dano que isso causa por si só, muito maior que o prazer e o autoconhecimento, nem na concepção estética contestável que isso pressupõe, o problema é que embriaguez e música estão associados, dentre outras razões: porque a rotina de trabalho e estudo continua sendo mais estafante do que precisaria ser. E na hora de se expor, ou de fazer aquele contato descontraído que vai lhe garantir um job, o músico precisa... fingir espontaneidade e sorrir.

4. Mais triste nesse quesito, contudo, é ver que – na era da virtual caretice e hipocrisia dos eternos candidatos a empreendedores de si mesmos – mesmo quem não se alimenta disso, se alimenta de uma eficácia mercantil e de um narcisismo ainda piores. Uma selfie vale mais do que mil sons. Isso não é só algo imposto pela era digital até ao mais obscuro músico, mas também um mecanismo de produção que, há pelo menos um século, vale para toda a indústria: a propaganda SEMPRE é o que rende algum dinheiro e prejudica a qualidade do conteúdo. Por isso grandes mestres instrumentistas que se vê por aí – inclusive abrindo escolas de adestramento – são em geral músicos que fazem um bom papel de manequim para marcas de instrumentos, métodos milagrosos de instrução, acessórios, parafernália de áudio, camisetas etc.

5. O roteiro dos bares equivale a uma peregrinação no deserto. A maioria deles te suga. Quando não tentam te roubar na cara larga inventando aparelhos quebrados depois da sua apresentação, querem que você leve público, que você toque o que emplaca, que você forneça equipamento, que você aceite não ser pago se necessário. Diante disso há duas opções: ou um vínculo pessoal com o contratante que garanta estabilidade contratual tácita pelos necessários altos e baixos, ou a guerra silenciosa em torno dos poucos bares que têm estrutura garantida (zona onde, aliás, se forma o ninho do corporativismo acima citado).

6. A melhor grana no ramo das apresentações vem do pertencimento a bandas de eventos. E quem já não aguenta mais ouvir "Whisky a Go-go", quanto mais tocar, sabe que isso não é nenhuma conquista. Quer fazer o teste? Puxe conversa com um músico de banda de baile, sem reverências ou cacoete de pares, e seja tratado como um mendigo...

7. A rua vem se oferecendo como alternativa, mas ainda tem constrangimentos. Geralmente armados de cassetetes ou de procuração da vizinhança, amargada por um sem número de desgostos que, suponho, não convidam a dançar. E isso mesmo depois que o Kassab (não o Prefeito Gato), sob pressão, baixou portaria autorizando apresentações ao ar livre sem prévia solicitação.

8. Os espaços culturais são geralmente dedicados à produção local, bastante focada em estilos chamados "populares". Isso não seria um problema, não fosse o fato de eles também terem sido dominados pelo sistema de financiamento público de cultura, o que soma ao carteado do networking avulso o empreendedorismo coletivista dos projeteiros, dominante no teatro, no cinema e agora também abrangendo a música. Um rastro de sangue e hipocrisia é o que grita contra essa conjunção de fatores. É que, ao final das contas, nenhuma habilidade retórica ou propósito político – por mais justificados que estejam nos critérios do juri deste ano – apagarão o problema em se construir um espetáculo de carimbó, quando se sabe que a gente que o produziu como possibilidade foi dizimada por alguma hidroelétrica ou bala de jagunço, encomendados diretamente ou por procuração do mesmo Estado a quem se pede dinheiro para homenagens.

9. Tal como em toda profissão, o trabalhador-músico tende a ser reacionário. Isso quando não é ignorante, eximindo-se de expor opinião e escorando-se no que fareja como consenso (isso vem com o pacote do corporativismo, primeiro e permanente refúgio dos acríticos). Se o músico tende à direita, os contratantes ligados ao comércio tendem ao fascismo.

10. Os produtores culturais são de esquerda, mas usam alguma ideologia populista ou esclarecimento em geral para catalisar a estrutura. Isso cria, óbvio, algum grau insuportável de cacofonia (não no bom sentido musical) e assim alimenta-se o ódio dos "colaboradores" pela esquerda. Já os “facilitadores”, por razões óbvias, tendem a ser pós-rancor. Como cortina de fumaça para tal situação, dissemina-se a papagaiada não materialista e cínica sobre ressentimento.

11. A contestação, em qualquer nível, está em baixa, aqui como em qualquer lugar. Tudo aquilo que é produzido para desafiar categorias é enquadrado imediatamente em uma nova ou antiga categoria (se você quer “experimentação” procure em noise, avantgard, art rock, industrial etc). Mesmo na gôndola a situação não anda boa. Os estilos politizados (categoria que já é um problema em si) estão em baixa na mesma proporção em que a busca por formas alternativas de produção se expande, especialmente com os meios digitais. Isso inclui tanto a produção de espaço quanto a parafernália tecnológica. Exemplos concretos: a cena punk já não existe; o rap está sendo cooptado pela lógica microempresarial; mas pulula o funk - que por mais interessante que seja no plano dos costumes, não forma política, estética ou tecnicamente num sentido amplo. Ambos os quais, aliás, não se faz sem acesso, também escalonado e excludente, a tecnologia.

12. A primazia dos meios de circulação sobre o conteúdo também se reflete na mentalidade do músico. Em todos os casos, o trabalhador-músico sabe que o que define a vida imediata é sua capacidade de estabelecer contatos, gerar valor e servir de meio para o fluxo do escasso dinheiro, num mercado que mal se pode chamar por esse nome. Portanto, ele não perde tempo se posicionando, seja quanto às grandes questões, seja quanto às do meio. E, com grau maior ou menor de cinismo e agressividade, considera isso uma babaquice imatura.

13. Porque o mercado é livre, mas rigorosamente disciplinado, a cada filão de música corresponde uma perversão pedagógica e estética, ainda que o mecanismo que integra formação de mão de obra e espaço produtivo seja o mesmo. Ou seja, não só do ponto de vista do público a gama de escolhas de estilo, meios e finalidades já está dada (pelo meio difusor de preferência, a região em que se vive, a turma que se frequenta, a educação que se teve). Se você toca rock não deveria passar perto de uma sala de concertos, manja? E se passar vão achar que você é simultaneamente esnobe e bárbaro. Se você pende pro erudito, é bom modular seu discurso, apreciando um samba como uma bonita expressão cultural, muito mais autêntica do que aquilo que toca no rádio. Se você faz funk, compre uma burka à prova de balas.

14. Nesse sentido, o da burrice que se contrai com toda educação formal ou informal (ou com a falta dela), círculos de rock, jazz, mpb, samba, rap, funk e música erudita são exatamente iguais, independentemente de estarem próximos ou não do nível superior (que deveria quebrar preconceitos, não armá-los de teoria). E como isso define o espaço de circulação da mercadoria-música, formar um critério de musicalidade que torne consciente e combata essas imposições fica bastante difícil.

15. Especialmente irritantes como traços culturais que se convertem em imperativos produtivos são: no rock, a moeda do virtuosismo, a ignorância como valor positivo e a incapacidade de dinâmica; no jazz, a obrigatoriedade dos materiais complexos, o improviso como valor inamovível, o fato de ser o tempero que atesta a sofisticação postiça de qualquer coisa; no samba, o garrote da pseudotradição e o fato de, frequentemente, o estilo se prestar a ser não mais que lugar de reserva de agregação comunitária; no rap, a transformação do ponto de vista crítico num salve indistinto chamado "positividade" e a crítica provinciana à novidade; no erudito, a falta de preocupação com a comunicabilidade e a pretensão de quem deveria saber que trabalha, atualmente, com lixo sonoro; na MPB, a obrigatoriedade do vínculo intérprete/compositor mesmo quando a indústria fonográfica faliu e a vitalidade compulsória herdada do desbunde requentado no tropicalismo de butique.

Música teria, em primeira instância, apenas o fundamental e imprescindível objetivo de produzir prazer ao gerar sentido com sons. Mas isso é o que nosso mundo faz com tudo o que pretende existir...

Com sons não poderia ser diferente.

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Márcio Nagasaki é compositor e produtor cultural, nas horas vagas consome peixe cru, cuida de iguanas e fuma Derby ao som da rádio AM.

#música #convidado #crítica #cultura

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