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  • João Paulo Connolly

País da Direita?
 Ou Por Onde Anda a Esquerda Estadunidense?


I

“This is the hammer that killed John Henry, but it won't kill me,” canta a voz rítmica e triste do Mississippi John Hurt — lenda da música folk e do delta blues — na canção “Spike Driver”. Trata-se de uma das muitas canções folclóricas sobre “o martelo que matou John Henry”, uma figura que surge da própria essência do blues.

Um trabalhador negro na construção de uma linha ferroviária, Henry vê o seu emprego ameaçado por uma nova máquina, movida a vapor, mais eficiente que qualquer homem. Ele então desafia a máquina a uma espécie de competição: quem fizer mais, em menos tempo, ganha. Por um lado, Henry se torna o primeiro homem a derrotar a máquina, mas, por outro, ele paga com a própria vida - a empreitada o mata.

A lenda de Henry surge das “Músicas do Martelo”, músicas lentas, repetitivas, usadas por trabalhadores e escravos para manter o que se chamava de “stint” — um ritmo de trabalho unido. O historiador Scott Reynolds Nelson, no seu livro “Steel Drivin’ Man” observa que a música em si mantinha um ritmo lento, enquanto e a letra servia para avisar quais seriam as consequências do trabalho rápido. Por trás da historia estava este recado: o trabalho mata, mas se os trabalhadores mantiverem um ritmo unido — organizado — poderão impor o seu próprio tempo, e suas próprias condições de trabalho.

Em outras versões da música, Henry surge para enfrentar o patrão, e avisar que haverá consequências caso ele use o chicote. Henry representa um elemento profundamente subversivo no folclore estadunidense, e também demonstra que muitas táticas do movimento trabalhista surgem da resistência dos escravos.

Direita Pura

Hoje de manhã li — desobedecendo à famosa regra para sanidade no século 21— um comentário na internet que associava os Estados Unidos a uma “Direita Pura.” Não sei exatamente o que isso significa, mas penso que, para o autor da frase, os Estados Unidos representassem uma espécie de “pólo norte magnético” da direita.

Então, tudo aquilo que provém dos Estados Unidos representaria o triunfo (ou desastre) capitalista neoliberal, protestante, surgido do valor dado ao trabalho e à família. Não escrevo para questionar esta visão do mundo, pois se trata de uma perspectiva tão simplista que confrontá-la aqui seria chutar cachorro morto. Na verdade, a “direita pura” se parece muito muito mais com a Aurora Dourada grega, do que o atual emaranhado burocrático do império estadunidense.

A equivalência automática dos Estados Unidos com a direita negligencia uma história de conflitos internos, de resistência, de anarquia sindicalista e de pensamento e movimento popular socialista.

Estes movimentos - apesar de se acovardarem, por vezes, diante da caça às bruxas macartista - exerceram uma influência real sobre a cultura, a legislação, e a atual conjuntura do país. Toda tentativa de contar esta outra história constitui um ato ideológico que desafia a narrativa oficial, mas também surge de um esforço para compreender o que está em jogo para a atual esquerda norte-americana.



Thaddeus Gregory Blanchette, estadunidense e professor de Antropologia Cultural na Universidade Federal do Rio de Janeiro, em Macaé, escreveu que, “Uma das frustrações de ser historiador, estadunidense e estar radicado no Brasil é ter que lidar com a percepção brasileira dos Estados Unidos... Não conhecem, pois, por alguma razão, livros como A People’s History of the United States, que, lamentavelmente, quase nunca são publicados em português.”

O texto ao qual Blanchette se refere, do Historiador Howard Zinn, teve, e continua tendo, uma influência enorme sobre a esquerda estadunidense. Zinn oferece uma espécie de contra-história, uma síntese dos capítulos clássicos virados ao avesso, contados, não a partir da posição dos presidentes ou líderes, mas da posição dos povos indígenas, escravos negros, e movimentos trabalhistas. Trata-se de uma visão radical, abertamente esquerdista, que é comumente ensinada nas salas de educação primária. É verdade que, com frequência, os governadores republicanos tentam banir o livro das escolas — mas até hoje não conseguiram.

Zinn documenta movimentos populistas e socialistas nos EUA do século 19, que faziam uma análise social muito parecida com a marxista, mesmo sem conhecer o trabalho do autor do Manifesto Comunista. Afinal, eles já se viam engajados numa guerra de classes. O historiador Norman Pollack, citado por Zinn, documentou os paralelos entre o comunismo que surgia na Europa, e uma visão política populista que aos poucos surgia de forma “caseira” entre os fazendeiros pobres nos Estados Unidos.

A visão populista nascia nas áreas rurais, enquanto nas linhas ferroviárias e nas minas de carvão surgiam os primeiros sindicatos, muitas vezes armados e prontos para a briga. O clima socialista surgia e conquistava, de forma cada vez mais radical, o trabalhador norte-americano.



Um dos livros mais vendidos no século XIX nos EUA foi uma obra de ficção científica chamada “Looking Backward: 2000-1887” do escritor Edward Bellamy. O livro apresentava uma utopia socialista e mais tarde a obra passaria a ser uma das favoritas de Erich Fromm. O romance teve um impacto profundo sobre as comunidades utópicas estadunidenses (há uma longa tradição destas) que passaram a influenciar, de uma forma bastante notável, a cultura e a política norte-americana.

Também foi esta obra que inspirou a carreira do socialista Eugene Debs, que passaria a ser um dos maiores líderes do movimento trabalhista estadunidense. (Um quadro de Debs ainda está pendurado na parede do escritório de Bernie Sanders, que afirma se inspirar no velho socialista.)

Outro socialista de renome, Jack London, eventualmente publicaria “The Iron Heel,” o que seria talvez a primeira distopia na qual os Estados Unidos eram imaginados sob a ditadura de uma oligarquia capitalista. A obra de London foi vista por alguns como uma espécie de profecia do fascismo, mas a advertência parece se encaixar ainda mais com os Estados Unidos de 2015. Ambas as obras (a utopia de Bellamy e a Distopia de London) tem como bisnetos a ficção científica cyberpunk da década de 1980 e 90.

Nos EUA de Bellamy e London também estavam presentes os ingredientes para uma esquerda antiautoritária, profundamente desconfiada do governo, que favorecia uma espécie de anarcosindicalismo. A Federação Americana do Trabalho, o maior sindicato estadunidense (que ainda existe como AFL-CIO) passou a decepcionar muitos trabalhadores pobres. Samuel Gompers, presidente da AFL, havia se tornado amigo pessoal do Presidente e dos grandes industrialistas, e suas negociações favoreciam trabalhadores brancos da classe média, que possuíam um certo nível de ensino e melhores cargos, mas excluía os negros e as mulheres, além de muitos brancos pobres e fazendeiros.

No ano de 1905, numa reunião que envolvia cerca de 200 anarquistas, socialistas e sindicalistas, surgiu o IWW — Industrial Workers of the World, cujos integrantes ficaram conhecidos como Wobblies. O movimento fora fundado por uma mulher, Mother Mary Jones, de 70 anos de idade (que havia passado boa parte da sua vida organizando sindicatos) acompanhada por Bill Haywood, líder radical trabalhista, e Eugene Debs, lider do partido socialista.

Os Wobblies incluiam a todos: Negros, Brancos, Indígenas, independente de sexo ou de classe social. Os Wobblies, com o seu sonho do “One Big Union” (um grande sindicato), representam um dos elementos mais fascinantes, porém pouco conhecidos, da história trabalhista estadunidense.

 Nomes como o de Debs, Emma Goldman, W.E.B Dubois, Claudia Jones, Amy Garvey, Hubert Harrison, Harry Haywood, Mother Mary Jones, fazem parte de uma historia muito pouco divulgada no Brasil. Até os nomes mais conhecidos, como Martin Luther King, não costumam ser representados como defensores radicais dos ideais da esquerda; apenas suas idéias mais inofensivas são destacadas.

De fato, há muita história para conhecer, mas não se trata apenas de historia. O país passou por um longo período conservador — mas este período, que eviscerou os programas sociais do governo, criou justamente o clima de descontentamento social que promove o retorno de um pensamento socialista e anarquista.

II

Verão de 2015



Em 2014, durante as comemorações dos 50 anos do “Voting Rights Act”, a lei que garantiu o direito ao voto para a população negra (e por consequência de todas as outras minorias), os EUA observaram a prova brutal de que os direitos civis conquistados fizeram pouco para mudar a condição real da população negra nos EUA, especialmente nos grandes centros urbanos.

Enquanto a própria lei do direito ao voto sofria uma erosão quase total, devido a novas leis estaduais, começaram a surgir organizações espontâneas, horizontais, que estravazaram a imensa energia reprimida e exigiram mudanças concretas. Malcom X, pensador intensamente atual, mostrou que estava certo ao dizer que: “precisamos de direitos humanos, antes de direitos civis”.

O verão de 2015 tem sido palco de organizações espontâneas, surgidas de todas as partes para exigir mudanças. São movimentos que rompem a rotina, que usam a internet para promover ações diretas, e que desafiam os limites da democracia representativa.

Este confronto, como todos que ocorrem entre a população e o Estado supremacista branco, trouxe à tona uma herança de contradições dentro da própria esquerda estadunidense, divergências teóricas e táticas que cavam valas profundas: Será possível promover a justiça econômica sem reconhecer a luta pela liberação racial? Será possível corrigir as atuais desigualdades recorrendo à velha democracia representativa?

Contudo, torna-se aparente a dificuldade de corrigir a distribuição da renda, ou de criar empregos, sem desenraizar os mecanismos da supremacia branca. O New Deal — famoso programa de estímulo do presidente Franklin Delano Roosevelt, seguindo a receita de John Maynard Keynes, ficou conhecido como o “Estado de bem-estar social para os brancos” — já que os próprios agentes da redistribuição, condicionados pelo viés racial, davam preferencia aos brancos.

Educação

Até que ponto a educação ajudaria a mudar o quadro? Será essa a solução, já que dentro das próprias escolas as políticas de “tolerância zero” são utilizadas para canalizar crianças diretamente para centros de detenção e, mais tarde, para a cadeia? Setenta por cento dos alunos presos dentro da escola, no famoso “school-to-prison pipeline” são negros ou latinos, inclusive nas regiões mais progressistas e liberais do país. De que adiantam mais escolas, quando a própria escola se converte em um mecanismo de repressão?

Por essas e outras razões, os movimentos por justiça racial não aceitam serem postos em segundo plano em relação aos movimentos por justiça econômica. Se um homem negro, rico e bem educado ainda precisa temer pela própria vida cada vez que é abordado pela polícia, porque abraçar a promessa de um partido que promete melhorar a situação econômica e social, mas não tem um plano para enfrentar a instituição racista da polícia? 



Ultimamente se discute bastante qual seria a relação entre a esquerda e os movimentos pela liberação negra. Quando ativistas do “Black Lives Matter” interromperam um comício do candidato Bernie Sanders (que vem surgindo como alternativa a esquerda de Hilary Clinton) em Seattle, cidade supostamente entre as mais esquerdistas, a população majoritariamente branca, começou a gritar e muitos pediram uma intervenção policial para prender as ativistas.

Certamente, nem todos na plateia eram da esquerda, pois a mensagem populista do candidato tem um apelo cada vez maior no “mainstream” da politica estadunidense. Entretanto, para as minorias, existem motivos históricos para temer essa espécie de populismo branco — especialmente um populismo que se apega de forma tão agressiva à imagem de um único candidato. (Vale lembrar que o sul era historicamente democrata, que muitas “union towns” — cidades completamente sindicalizadas — ainda eram segregadas, e que o ódio aos lobos de Wall-Street não é incompatível com o ódio racial.)

As diferenças entre o populismo branco e a causa negra são antigas, já que “os populistas, assim como a maioria dos americanos brancos, tinham o racismo e o nativismo dentro de sua forma de pensar...” reconhece o Howard Zinn. No atual plano político, e dentro dos movimentos sociais, os negros não aceitam mais serem colocados em segundo plano, e desconfiam de uma suposta política econômica que eventualmente os ajudaria, mas que exige que se comportem dentro dos limites do sistema.



Todavia, os movimentos negros estadunidenses não são incompatíveis com o socialismo. Pelo contrário, eles trazem ao socialismo uma perspectiva essencial e talvez sejam os mais aptos a destronar o Deus da meritocracia.

Em "The Negro and The Nation", seu famoso ensaio de 1917, o autor Hubert Harrison, conhecido como Sócrates Negro, escreve: “Hoje a escravidão acabou. Mas enquanto existiu, era esta a sua essência: Certos seres humanos eram obrigados a trabalhar, e a riqueza gerada pelo seu trabalho não ficava em suas mãos, mas ia diretamente aos que descansavam no luxo gerado pelo trabalho escravo (...) Hoje, meus companheiros no sofrimento, nos dizem que somos livres. Mas será que o somos? Se pensar por um instante, verá que não somos nem um pouco livres.”

Em seu famoso "Pedido de Adesão ao Partido Comunista", de 1961, W.E.B Dubois, fundador da Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês), escreveu: “Hoje cheguei a conclusão: O capitalismo não pode se auto reformar; está fadado à autodestruição. Nenhum modelo de egoísmo universal trará o bem social a todos.” 



Já Claudia Jones escreveu em 1949 que “Uma característica saliente do atual estágio da luta pela liberação Negra tem sido o crescimento na participação militante das mulheres negras, em todos os aspectos da luta pela paz, pelos direitos civis, e pela segurança econômica.” Essa tradição militante pode ser vista nas obras de Angela Davis, Audre Lorde e Barbara Smith, entre tantos outros nomes.

O Combahee River Collective, uma organização feminista negra da década de 70, afirmava que: “Apesar de concordarmos em essência com a teoria de Marx que se aplicava às relações econômicas muito específicas analisadas por ele, sabemos que sua análise deve ser estendida ainda mais para compreender nossa situação econômica específica como mulheres negras.” Foram justamente mulheres negras, ativistas, que fundaram o movimento “Black Lives Matter,” e que hoje lideram os protestos e o movimento nas ruas. Nem todas possuem a análise radical do Combahee Collective, mas todas se posicionam a esquerda do atual status quo.

Durante uma conversa com Eddie Conway, um dos fundadores do Partido dos Panteras Negras, e o professor Cornel West, o Reverendo Sekou descreve o movimento que surge como “o efeito de um discurso transnacional, queer, anti-imperialista, e anti-capitalista.” Trata-se uma critica a todo o império estadunidense e à violência interna e externa que produzida por ele. Durante a mesma conversa, Conway observa que “a cibernização e a automatização tecnológica estão tornando o sistema capitalista obsoleto para as grandes massas (...) já não há mais espaço para o trabalhador aqui nos Estados Unidos, a não ser na indústria de serviços, etc (...) então, ainda que não definam isso como ‘socialismo,’ as pessoas estão se movendo na direção de um paradigma socialista para o futuro.” 



Em meio ao calor político de 2015, também surgem diferenças entre os campos que buscam mudança dentro do modelo representativo, apoiando candidatos como Bernie Sanders (tradicional centro-esquerda) ou Kshama Sawant do novo partido Socialist Alternative, que ainda veem a cédula de voto como o principal mecanismo para promover mudanças sociais, além dos que passam acreditar cada vez mais na pressão criada pela ação direta.

Algumas das atuais organizações socialistas dos EUA incluem a ISO – International Socialist Organization, o Socialist Workers Party, o tradicional Communist Party of the United States, e os Democratic Socialists of America, entre muitos outros movimentos e grupos e surgem a cada dia.

Naturalmente, existem divergências de opinião a respeito da candidatura de Sanders— muitos apoiam suas ideias no plano nacional, mas ainda o veem como defensor do império. Outros o criticam por ter escolhido se candidatar dentro do partido democrata, pois entendem que a criação de um terceiro partido será a melhor opção para esquerda estadunidense.

Contudo, fora do campo eleitoral, está o trabalho diário e árduo dos que buscam fortalecer as comunidades, melhorar as condições escolares, criar fazendas urbanas para disponibilizar alimentos saudáveis para as populações que muitas vezes passam fome dentro da maior economia do mundo, e monitorar as ações da polícia local, de modo a tentar restringir os abusos policias.

Há muito chão pela frente. A combinação de ambas as frentes, de forma interseccional e abraçando os novos meios de comunicação, será a única saída para a esquerda?

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João Paulo Connolly é um sujeito meio confuso, brasileiro-gringo, ainda sem formação, desconfia profundamente da felicidade, vive em Austin, no Texas, onde largou o sonho de fazer cinema, mas continua estudando filosofia e literatura, agora completamente sem rumo. Tem como objetivo máximo ficar sentado o dia inteiro em casa, lendo.

#política

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