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  • Acauam Oliveira

Devassando Babylon by Gus vol. II, o novo disco de Gustavo Black Alien


CHIC Pop Review

Ali por meados dos anos 90, o Planet Hemp oferecia uma mistura interessante de sons (que foi se tornando cada vez mais intensa até a dissolução do grupo) e de personalidades que apontavam para caminhos diferentes que escapavam a rótulos e enquadramentos fáceis. O mote obsessivo da militância pela maconha, se por um lado aponta para uma limitação temática que coloca limites criativos que tornava os membros da banda progressivamente insatisfeitos, por outro permitia conjugar como talvez nenhuma outra bandeira diversos aspectos que podem ser distinguidos na personalidade da obra posterior de cada um dos integrantes do grupo. O aspecto propriamente político e militante, com novas bandeiras, vai marcar a produção de B. Negão. Por sua vez, como estamos falando de maconha, não pode faltar a parte da curtição, tiração de onda, ficar de boa (que não casaria tão bem com outras drogas), que tornou a figura de D2 tão simpática, aliado a seu talento rítmico que o afastaram cada vez mais do rap para aproximá-lo da figura do malandro carioca típico. Mas a loucura de fato, com todas as suas consequências em termos de genialidade e auto-dissolução, parecia ficar mesmo com o terceiro personagem, Gustavo Black Alien.

O primeiro disco solo de Black Alien foi o conceituadíssimo Babilon by Gus vol. I, aclamado pelo público, dentro do universo rap e fora dele. Todos se mostravam impressionados com o estilo forte e variado das rimas, as quantidades de referências de diversas esferas, a abrangência de temas, a diversidade de técnica do rapper. Naquele momento o rap se expandia e ampliava suas possibilidades, e Black Alien parecia representar para o Rio de Janeiro aquilo que Racionais e Sabotage representavam para a old school de São Paulo. E não é possível saber o que seria do rap carioca caso o projeto de Black Alien tivesse seguido de forma mais constante, talvez uma alternativa de alto nível ao padrão do funk carioca.

Por essas e outras pode-se dizer sem exagero que um dos lançamentos mais aguardados no mundo do rap é Babylon by Gus vol. II (No princípio era o verbo), álbum que já havia se tornado quase mítico dado as muitas vezes que foi anunciado, denunciado e renunciado. Seu lançamento era cercado de muitas dúvidas, especialmente por parte do próprio Black Alien, que ao longo desses 11 anos passou pelas mais diversas provações, como a morte de seu parceiro Speed, e a batalha constante contra o alcoolismo. Pode-se dizer, inclusive, que esse é um dos principais valores do disco, o qual se deve reconhecer e aplaudir: seu teor de verdade. Babylon by Gus vol. II é um disco de alguém que quase perdeu tudo, mas conseguiu renascer, ao custo de batalhas diárias. Por isso o resultado é uma obra solar, de agradecimento e amor pela vida. O formato é rap, mas o que o move é Jah, um disco com espírito muito mais reggae do que rap (“é mais legal ser legal \ me faz bem não ser do mal”). Aliás, creio que alguns de seus problemas, assim como seus aspectos mais interessantes partem dessa mesma matriz, dessa ambiguidade de impulsos que no álbum anterior parecia mais equilibrada, e aqui apresenta um resultado geral mais irregular.

O trabalho caprichoso com o verso continua lá (“falta humildade relativa no ar”), na busca de rimas (inclusive as internas) e sonoridades inusitadas, que seguem em um fluxo verborrágico sob uma criativa variedade de sonoridades e ritmos que formam suas bases. Entretanto, o conjunto não revela a mesma potência e sentido de urgência do trabalho de 2004. Ainda que seja injusto insistir na comparação - pois esse Black Alien é um novo sujeito - alguns aspectos exigem certa atenção. Creio que um exemplo bastante claro é o caso dos chamados “rap de amor”, que em 2004 representavam uma verdadeira afronta contra o universo rap centrado na ética do macho que recusa a tentação do desejo feminino em nome de um controle racional de seus impulsos. Ali, Alien já demonstrava uma profunda independência de escolas e escolhas. Nesse volume dois, contudo, as canções de amor são muitas vezes sucessões de descrições batidas e generalizações clichês, como “Falando do meu bem” e “Somos o mundo”. Inclusive, ideologicamente essas canções acabam por revelar um aspecto mais geral e problemático do disco: a separação da voz do rapper com o mundo que o cerca, que revela um desejo de concentrar-se apenas nas coisas mais belas da vida. Tal movimento não deixa de causar certo estranhamento, tendo em vista que muito da força do hip hop (seja old ou new school) é precisamente seu poder de imersão crítica no mundo que o cerca. Babylon by Gus vol. II, por sua vez, é claramente focado nos aspectos positivos de sua nova existência, seu renascimento, como é deixado explícito na “nota explicativa” que segue o disco:

“Eu e Basa fizemos um disco com a cara do meu momento, e isso foi natural, sem mais pretensões. Fizemos um disco à energia solar, escrevi a maioria das letras pela manhã, embalado pelo canto dos pássaros e minha nova rotina, nada mais nada menos que a rotina da positividade, atitude mental assumida nos últimos tempos”.

Não poderia haver uma sinopse melhor do disco. É um disco de agradecimento pela vitória, pelo fim de anos de luta e começo de uma nova etapa. Como tal, decide se concentrar apenas no aspecto solar, e não naquilo que ele teve que enfrentar, seus demônios e pesadelos que foram exorcizados, o que acaba por retirar algo do potencial estético do conjunto, pois uma das matrizes da força da grande arte está em incorporar seus demônios, levando o pacto demoníaco as últimas consequências (que muitas vezes é um encontro com aquele Deus que existe no âmago do inferno, e que por saber da queda é muito mais poderoso do que qualquer outro Deus). Gustavo está interessado em sua nova rotina, e sua arte se exime de nos revelar qual foi a sua luta, seus confrontos, seus demônios. O aspecto mais duro da existência e do mundo desaparece aqui, ficando a impressão não de falta de profundidade, mas de um silêncio fundamental que só pode ser rompido com a superação do trauma.

[Para conhecer melhor alguns desses demônios, bem como compreender a importância de Black Alien no cenário musical de sua época, vale a pena assistir ao documentário de Ton Gadioli]

Faz tempo que a polêmica sobre o “rap de amor” revelou ser uma besteira: não existem temas que o gênero não possa tratar, pois ele tem o mesmo tamanho do devir humano. Entretanto, outra pergunta parecida pode ser ainda produtiva e interessante: será possível fazer um rap de qualidade que seja simplesmente solar, que silencie sobre a dimensão noturna da existência? Pode ser que sim, em algum momento, mas em Babilon by Gus vol. II essa disposição não está bem resolvida, e versos como “eu sou o rolo que amassa o opressor do meu povo” soam algo artificiais em um disco que na maior parte do tempo não se preocupa em focalizar essa opressão. É claro que tratar desse tema não é obrigação de ninguém – e menos ainda de Black Alien, cujo mérito consiste precisamente em ampliar os horizontes estéticos do rap - mas então para que tocar no assunto e dizer nos versos que se faz o que não é feito? A contradição está, enfim, na própria obra.

As letras, centradas nas dimensões mais positivas desse renascimento - a família (“Homem de família”), o amor (“Somos o mundo), o skate (“Skate no pé”), os próprios versos - não tratam da turbulência que passou, dos conflitos mais concretos. Esses surgem apenas em imagens cifradas, retratando muito mais os ensinamentos aprendidos (“O estranho vizinho da frente”, a excelente “Identidade”) do que os conflitos em si. É claro que existem exceções, como a excelente e pesadíssima “Rock n’ roll”, com participação do Edy Rock, que chama mais abertamente para o conflito. Em linhas gerais, contudo, as partes de violência são evocadas, mas não descritas, o que pelo silenciamento revela a profundidade do trauma. Digamos que entre o Gustavo do primeiro trabalho e esse novo existe um hiato que não se apresenta no disco, um limbo que não se revela, provavelmente demasiado profundo para vir à superfície.

Talvez o caminho para colocar sua obra novamente entre os grandes seja fazer com que esse novo Black Alien encontre algo daquele outro, mais jovem e mais louco, genial e destrutivo. O que é um feito estético e, principalmente, humano, bastante difícil de se realizar - como se o Rodolfo ex-Raimundos e agora cristão fervoroso, conseguisse realizar a síntese que sua nova vida, com seus dogmas e paradigmas, terminantemente impede - em parte porque foi contra esse eu anterior que o novo ser se constituiu.

Babylon by Gus volume II pode não ser tão inovador como Convoque seu buda (Criolo), nem tão coeso quanto O glorioso retorno de que nunca esteve aqui (Emicida), e nem ter o peso e o caráter de auto compreensão de Cores e valores (Racionais). Entretanto, é um bom disco, com versos inusitados e que revelar um artista ainda com pleno domínio técnico de sua linguagem, que vale especialmente pela reapresentação para o mundo de um sujeito que passou pelo inferno e sobreviveu. Afinal, não é essa uma das funções mais importantes do rap? Pode não ser o melhor trabalho que sabemos que Gustavo Black Alien é capaz de fazer, mas é absolutamente necessário que o disco que ouvimos seja exatamente esse. Inclusive naquilo que tornará possível seus próximos passos.

Nelson Nerd avalia: **** (BOM)

Babylon by Gus vol. II está também disponível para download gratuito. CLIQUE AQUI.

#música #review #AcauamOliveira

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