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  • Camila Dias

Crônicas a céu (quase) aberto


Quando eu me mudei para o centro de São Paulo pela primeira vez, tudo ficou pequenino. A distância enorme que me separava do resto da cidade, de repente, diminuiu: 5 quarteirões para aquela padaria do croissant divino? Do lado! Ir até a Paulista a pé? Por que não? E chegar a Itaquera? Ah, uma linha só de metrô, rapidinho! Mal lembrava aquela que, um dia, a título de mostrar aos amigos onde morava, teve que apontar com o indicador esquerdo a faculdade, vulgo USP, e com o direito, lá do outro lado, com as pernas um pouco esticadas para ajudar, a casa.

Meus amigos, vindos do interior, olhavam perplexos, internamente se perguntando porque eu viajava aquela distância todos os dias, mas foram elegantes em somente sorrir e oferecer a república sempre que eu quisesse ficar por ali.

Imaginem, então, meu encantamento quando eu me instalei a passos de uma estação de metrô, algumas quadras do teatro e poucos pontos de ônibus de cinemas com filme europeu!

Mas é um fato de que foi a distância que fez com que a São Paulo se desse por se revelar para mim durante aqueles anos em que eu percorria quilômetros todos os dias.

As principais avenidas da cidade vieram fazer parte da minha vida: os cafés que só a Paulista oferecia, o congestionamento da Rebouças que durava horas suficientes para cantar discos inteiros no carro da carona, a Angélica e suas árvores que permitiam chegar às estações da linha vermelha pela sombra, como recomendara minha avó, a Corifeu que me levava a um novo mundo de conhecimento, de amigos, de pequenas revoluções pessoais e experimentações.

E foi na FFLCH dos anos 2000, onde aprendíamos que tudo era relativo, que duas coisas pareciam ser verdades absolutas: deveríamos ali experimentar tudo que não havíamos vivenciado até então e todos deveríamos conhecer a Vanguarda Paulistana. Este último fato contrastava com minha criação em bairro distante, quase interiorano, e com uma cultura musical que não incluía a referência tão USPiana. Logo, eu não entendia a honra de ter aulas com o Luiz Tatit (até de fato começar a tê-las) e ignorava até então a cena musical que inaugurou o que chamamos de independente no Brasil.

Mesmo desconfiada que para alguns dos meus amigos a Vanguarda era tão misteriosa quanto para mim, empreendia a mesma expressão que havia aprendido a ter durante as aulas de Estudos Literários e Estudos Linguísticos - quando frases como “conforme vocês já leram em Saussure” ou “nos contos de Clarice, que certamente vocês já conhecem” – e fiz o que deveria ter feito para essas aulas: fui estudar! MENTIRA!

Mas mergulhei na Vanguarda de diferentes formas: descobri a música atonal de Arrigo Barnabé, o timbre maravilhoso de Ná Ozzetti, as composições de Itamar e as performances (revival) do Isca de Polícia e encontrei o Grupo Rumo.

Assim como São Paulo passou a se fazer, para mim, um conjunto de crônicas a céu quase aberto, ofuscado por muitos prédios e alguns aviões, o Grupo Rumo traduzia essas crônicas em letras, tons e harmonias.

Apesar de não mais correr o risco de reprovação em Semiótica (3o ano – 2o semestre), não arrisco aqui nenhuma análise musical das faixas de “Rumo”, disco de estreia do grupo gravado em 1981. Mostro, no máximo, minhas impressões de algumas canções que podem ser crônicas aproximadas das minhas descobertas da(s) cidade(s) (universitária e paulistana).

O “Encontro” que vimos na primeira faixa do disco, é aquele bem paulistano, com pressa, de longe, mas com uma vontade de se aproximar “com a cara grudada, nariz com nariz” talvez como forma de compensar a distância imposta pelo ritmo frenético da metrópole.

Em “Época de sonho” o tempo-espaço da crônica é brilhantemente situado em uma única frase, “e nem é época de paixão” , depois de termos acompanhado deliciosamente a contação de um sonho entre amigos.

Em “Acho pouco”, vimos a eterna insatisfação em um relacionamento e, talvez, em uma vida na cidade que te ensina que sempre se pode querer mais, embora sejam poucos os que chegarão lá, seja lá onde for.

E a brilhante “Carnaval do Geraldo” nos diz sobre os entraves de um sujeito que queria tanto aproveitar tudo aquilo, mas se preocupa “porque todo mundo olha; porque todo mundo para; porque todo mundo seca” em uma cidade em que a aparência pode ser tudo, embora o tudo seja rápido demais.

Naqueles anos em que a cidade se revelava para mim, aprendi seu ritmo frenético que afasta as pessoas, mas faz crescer em você o desejo da proximidade; aprendi que para vivenciar tantas experimentações, mesmo não sendo tempo de se apaixonar, era essa paixão que nos moveria; vi crescer em mim e nos meus amigos uma insatisfação pela ordem das coisas e uma vontade de querer mais; e embora os olhares pudessem ser condenáveis, contrariamos Geraldo e fizemos do Carnaval um modo de vida.

São Paulo e o Grupo Rumo têm um movimento parecido: uma estranheza inicial que vai se revelando em uma beleza tão paulistana, tão nossa; só poderia ser daqui!

Uma cidade geradora de um ser paulistano que reclama da chuva e também quando faz calor demais, fala mal do congestionamento e das longas distâncias, roga pragas e jura um dia sair daqui, mas que defende esse lugar com suas contradições, passa a ver belezas em tantos arranha-céus, amor nas catracas do metrô e jura que um dia, talvez amanhã, logo menos, no final de semana, no próximo feriado, vai ter amor em SP!

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Camila Dias é adepta do movimento "bailarina sem fronteiras" nas pistas de dança e sabe tocar duas músicas de cor na escaleta. É integrante da @bandaliterária e escreve no @jazmim_escritos

#musicapornaomusicos #CamilaDias

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