• Acauam Oliveira

1972 - 1982: um disco e um dia


Desde criança ouço minha mãe contar: eu, nove dias de vida, no colo, enquanto ela soluçava a morte da Elis assistindo o TV Mulher.

Era só o começo de 1982 que ainda seria marcado pela decepção do meu pai no jogo Brasil x Itália na Copa, seu juramento de nunca mais acreditar em futebol - embora nunca tenha perdido um jogo do Palmeiras nos 30 anos seguintes - e pela partida do Adoniran, que ainda dava ao samba um tom paulistano.

Mas também era a época da redemocratização do país e, junto com a minha chegada, isso assegurava aos meus pais que nada seria como antes.

Era a década de (ainda) muitas mães donas de casa, vida pacata, único marido e a TV para ajudar a criar os filhos. Como elas se encantavam com aquela mulher divorciada, mãe quase-solteira, envolvida com histórias de álcool e drogas?

10 anos antes essa história era construída com o disco Elis (1972) em que ela gravou a composição já citada de Milton e Ronaldo Bastos, e reuniu outras de Ivan Lins, Chico, Tom, João Bosco, Fagner e Belchior.

Quando fui dividir apartamento com um amigo viciado em Elis, descobri esse disco como um objeto em si, e não as músicas dele que pipocavam em gravações ao vivo e coletâneas ouvidas antes, e lembro de ler o encarte e ficar embasbacada com a quantidade de compositores que ela havia reunido ali.

Eu era pouco mais velha do que a Elis de 1972 e, apesar de menos vida vivida, dividia com ela uma calma inventada e as mais de mil perguntas sem respostas dos "20 anos blues", que abre o disco. "Bala com bala", que marca a estreia de César Camargo Mariano como seu arranjador, é para mim motivo suficiente pra gente querer aprender a tocar piano, ou deprimir por não saber (otimismo ou pessimismo, escolha seu lado!).

Com imagens como “calça nova de riscado, paletó de linho branco, que até o mês passado, lá no campo inda era flor”, “os que compram o desejo, pagando amor a varejo, vão falando sem saber” e “é madeira de vento, tombo de ribanceira, é o mistério profundo, é o queira ou não queira”, Elis, o álbum, se desfaz em versos que entrariam para o cancioneiro da música brasileira e para minhas cantorias embaixo do chuveiro.

Mas sempre me pegava pensando em versos que, para mim, passaram a fazer parte do repertório de muitas daquelas donas de casa dos anos 70 e 80. Ensinadas a amar um homem só, a se doar aos filhos e à família, provavelmente muitas delas se enxergavam na voz embargada dos versos de “Atrás da porta” ou se viam vingadas no desabafo de “Me deixa em paz”. Ainda em “Cais”, não cantariam elas “invento o amor e sei a dor de encontrar” enquanto pensavam sua vez de se lançar ao mundo?

A figura de Elis poderia ser contraditória, mas no fundo era só humana. Seguramente por isso a minha mãe não foi a única a chorar naquele dia.

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Camila Dias é adepta do movimento "bailarina sem fronteiras" nas pistas de dança e sabe tocar duas músicas de cor na escaleta. É integrante da @bandaliterária e escreve no @jazmim_escritos

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