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  • Camila Dias

Super heróis da madrugada


Foi em uma terça-feira, a primeira de julho daquele ano. Era o fim do meu primeiro semestre no mestrado e a culpa me guiou na decisão de não viajar nas férias, uma pilha de bibliografia me esperava, além da pouca grana após alguns meses arcando com os gastos antes da bolsa chegar.

Fui a uma hamburgeria com um amigo e, em seguida, uma amiga chegou. Ou foi ao contrário - vale revelar aqui que tenho uma memória absurdamente seletiva, e metade do que conto semanalmente pode ter acontecido de forma oposta no mundo concreto. Hamburger, isso tenho certeza. E umas cervejas diferentes, dessas que estavam começando a pipocar como gourmet em SP e que a única vantagem é o efeito mais concentrado e rápido.

Decidimos prosseguir com a noite e sugeri o Puxadinho da Praça. Eu havia voltado a frequentar o circuito de música autoral há poucos meses depois de um tempo afastada e, naquele meio tempo, havia surgido esse lugar na Vila Madalena. "Algum show bom na certa", eu disse e o nome da banda que achamos pela internet nos animou: "Porcas Borboletas". O que era aquilo?

Logo na entrada, alguns conhecidos, abraços e acabamos por cumprimentamar alguns dos caras da banda que subiriam no degrau logo menos (o palco do Puxadinho é logo ali, com a gente na pista).

O show começou e o rock brasileiro ressurgiu em guitarra, teclado, bateria, baixo e percussão em sintonia total. As vozes dos dois vocais se revezando na poesia performática das letras se fundiam com o público que se tornava o oitavo músico daquele show. Eram músicas, declamações, artes plásticas (o figurino de shortinho de futebol anos 70 fazia a diferença!) e uma energia que se transformava em pulos e solos dos músicos e de quem estava no show. Eu aprendia ali que ir a um show do Porcas não é assistir, mas sim ser convidado a atuar naquela diversão toda. As músicas do show eram do disco homônimo de 2013, e começamos a entender a identificação do público: todos ali éramos "criados a amor de mãe e mal criados a David Bowie", todos já havíamos pensado em procurar um amor perdido em postos de gasolina do país ou com Silvio Santos no Portas da Esperança, como em "Valéria", e em coro reafirmávamos que "It's only life but I like it".

Quando tocaram "Tudo que eu tentei falhou" reconhecemos que o Porcas construiu um verdadeiro hino da nossa geração: em um poema com imagens próprias das gerações 80 e 90, eles reconstituem todas as tribos que participamos, lembram das propagandas que assistíamos na nossa criação a base de muita TV e se referem a todas as maneiras de amor que (ainda!) tentamos. Tudo isso pautado por uma guitarra que dá o tom do desespero e o sábio uso de pedais ao fundo. E com um refrão tão poderoso que reverbera duas faixas depois em "Festa terror". O disco apresenta mais seis faixas até encerrar com "Wellington", a música que, segundo uma amiga (que ficou tão fã que compareceu mais ao show do Porcas do que alguns de seus integrantes) te coloca em alto astral imediatamente, independente de como você esteja.

Ao final desse show, entre os velhos e novos conhecidos, escolhemos bater papo com a banda. O Porcas tem sua versão do clássico "cafezin com pão de queijo" que todo mineiro oferece ao te conhecer: estão sempre dispostos a uma cervejinha pós-show, uma dançadinha na pista, trocar uma ideia. Foi numa dessas conversas que disse algo como "vocês são a nova banda de rock que vai estourar nesse país" e algum deles respondeu irreverente "faz uns 10 anos que o Porcas é essa banda aê!"

Ainda não temos um novo disco do Porcas, mas tampouco os integrantes estão parados, pelo contrário! Moita, o guitarrista, acompanha três de cada cinco projetos de música autoral de qualidade em SP, entre eles Juliana Perdigão e Frito Sampler, lançamentos de logo menos; o vocal Danislau lançou há pouco seu livro "Hotel rodoviária" e ainda, ao lado de Moita e Nath, toca e se veste lindamente no Barraca do Beijo (vale aqui a menção a Nath, a percursuonista convidada do disco e presente nos shows, pesquisadora sorridente e mestre em batuques brasileiros, de presença maior do que um parênteses!); Vinicius, o baterista, percorre os mares e projetos musicais no sul do Brasil; Ricardim se arrisca em outros teclados, como o do computador, mantendo o divertido canal "fodadeesquecer" no Youtube; Enzo Banzo, além do livro "Poesia colírica", faz a gente ficar de olho na secretaria de cultura de Uberlândia, onde ele está, de volta à terra natal, e também com o projeto musical "Comédia romântica"; e Chelo pratica o baixo enquanto produz cervejas artesanais de primeira (melhores do que as ditas gourmet, do começo dessa história).

Passados dois anos, vejo a bobagem daquele meu comentário: pouco importa ser a próxima banda de rock a estourar no Brasil, o que importa é estar no mundo como artista. E haja Artista pra tanto projeto! - sem erro de digitação, os meninos são com letra maiúscula mesmo.

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Camila Dias é adepta do movimento "bailarina sem fronteiras" nas pistas de dança e sabe tocar duas músicas de cor na escaleta. É integrante da @bandaliterária e escreve no @jazmim_escritos

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