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  • Vivien Lancellotti

A Verdade Interessa Mais que o Medo


As últimas noites eu venho sonhando com Shiva, vendo-me encurralada contra o grande mistério.

Quem diabos é essa tal de Shiva? Faça o que fizer, a questão não deixa de grilar-me: já faz certo tempo, claro está, mas mesmo assim, Rafael Bini amou profundamente a uma mulher a quem outorgou esse nome infeliz que hoje me persegue. Como pode uma simples canção transmutar a especial simpatia que sempre senti pelos entes sagrados da mitologia hindu? Poxa, põem um nome normal na criatura - Rosa, Maria, Querubim... mas não altere a vibração dos conceitos filosóficos aos que com mais carinho me apego! Eu, e suponho que todos os simpatizantes de tais presumivelmente intocáveis conceitos que aludem ao ápice da sabedoria e do poder do amor e da paz, teríamos ficado gratos. A gratidão ignorante, ao final, também é gratidão, mesmo sendo simplesmente pela ausência de rancor.

Nos momentos em que minha consciência se eleva, no entanto, em que a solidariedade permeia meu pensamento, fico rindo de mim mesma sozinha, lembrando-me da piada da Lola:

"Amor, não pude te ligar antes. Desculpa, querida. Tive um acidente na estrada. Quebrei uma perna ao deslocar o quadril e perdi grande parte de um braço. A Lola me levou pro hospital e o médico disse que a contusão cerebral pode provocar a irreversível perda de funções vitais de momento imprevistas. Ainda bem que ninguém mais saiu ferido. O que será de nós?"

"Quem é Lola?"

Tive que reconhecer, e com humildade, o poder da cultura pop. A coisa não terminou com Warhol. O fato é que, apesar de Shiva ser-me, por um lado, fonte de uma sutil mas persistente angústia, continuo constatando que ao trancar a porta de casa a primeira coisa que faço é apertar o play. Não posso contradizer a causa daquele efeito: adoro saltitar sem razão pela sala como uma gazela no prado!

Não teve jeito. Deparar-me com o som de Comida China foi um caso de amor a primeira ouvida. A voz de Bini não é menos aconchegante pela sua máscula sensualidade e aquela força que tem ao declamar a mensagem. A expertise dos três integrantes do grupo, e de todos os músicos convidados que dão o toque, é de enlouquecer a qualquer um; projeções aparte, logicamente. Com um jeito muitas vezes brincalhão e outras tão sério como a vida mesma, a banda de rock nacional Argentina - seu nome tão inovador como seu produto - une elementos musicais daquela maneira exótica como quem, abastecido com ingredientes multiculturais na prateleira, cria refeições que virão a ser repetidas somente em sonho.

Só mesmo a paixão é capaz de conduzir o artista ao armazenamento de conhecimentos que logo se traduz em criações dessa estirpe, e é justamente essa paixão que se infiltra pelos sentidos de seus testemunhos. A magia da combinação de Rafael Bini, Alejandro Fernandez Y Damico, e Fernando Mironescu, jaz na irreprimível mania de se expressar a través daquilo que eles amam, a música. Seu ecletismo é, sem dúvida alguma, uma das causas principais do sucesso que tiveram na urbe dos bons ares nos anos oitenta.

Nossos vizinhos têm muito mais para compartilhar do que os vagos terrores impostos pelo regionalismo podem permitir, futebol aparte, naturalmente! Como nota pessoal, não pude deixar de notar que vivendo na Espanha tive muito mais contato com argentinos que com espanhóis. Há um laço de familiaridade extra-conceitual, ou seja, emocional, que nos une. É algo que se sente claramente quando se é sul-americano e estrangeiro por vários anos num país europeu. Alego, mesmo assim, que o que me toca em CC é algo que vai muito além de questões de liberdades ou barreiras sociológicas.

Num momento tão importante, em que a globalização tanto nos une como nos uniformiza, encontrei neste som algo profundamente refrescante que não pude deixar de celebrar. Fico me perguntando, "o que será?" Além da maestria técnica, CC exibe os toques paradoxais da rebelião e a aceitação humana que dão sentido aos movimentos artísticos mais comoventes. Rebelião sim, pois a arte, mesmo sendo descritiva, sempre é uma rebelião - senão, seria ciência. Hoje sabemos que a linha entre a arte e a ciência muitas vezes é tão fina como a agulha com que seus produtos se administram, mas não viemos aqui para tratar deste tema. O que me interessa mais é aquela palavra tabu irresistível, rebelião, e a quê. Talvez, neste caso, à triste realidade do declive em originalidade no mundo musical das últimas décadas.

A importância da música é incontestável. É produto de consumição imediata na veia, e deve, ao meu ver, juntamente às outras formas de arte, manter seu lugar no pedestal da divulgação de conhecimentos e sugestões expansivas dos estados tanto emocionais e espirituais como daqueles pertencentes ao intelecto. De que outra maneira vocês acham que os grupos mais influenciais se estabeleceram nos tempos em que ainda reinava o pensamento livre entre as mais diversificadas tribos urbanas? Cada um de nós, tão moderno, é o microcosmo que delata o estado da unificação global que se sobreporá completamente em nossas tendências, a não ser que decidamos indagar mais longe.

Por isso mesmo é que a notícia de que CC voltou à cozinha me deixa tão alegre! Seus temas sempre me levam como uma onda, não em contra, mas a favor, e como conseqüência desse idealismo que cheirei e com o que pude me identificar, cada fração do seu ritmo, melodia, e das suas letras, me injetou com aquela energia positiva a que, evidentemente, me viciei. Serão os mesmos, ou outros, os instrumentistas extra-grupais desta vez? Tanto a sugestiva canção Película Italiana, como aquela com um apelo tão geral como individual, Sueño en Blanco y Negro, são temas que não deixam ninguém em estado neutral. Seja o sabor sobressalente à la rockabilly, eletrônica, dark ambient ou reggae, acho que o que mais me seduz é a combinação harmônica de tantos gêneros. O ouvido experimentado também pode comprovar a influência do rock brasileiro. Bini é grande fã de Rita Lee, Os Mutantes, Seixas, Cazuza, Titãs, Chico... Devo continuar? Tá bom, Walter Franco, O Terço, Gil, Mautner, Gal, Elis, Cássia, Paralamas...

Além de músico, Rafael Bini é jornalista e autor dos livros Patria Gótica e La Venganza de Killing. A través de seu programa de rádio, Nube100, pôde-se praticamente palpar a variedade do seu historial musical. Bom, tendo concluído a explicação teórica da minha exaltação, só me resta defumar aquela ligeira pulga que ainda, ainda, me coça atrás da orelha. Um dia desses, portanto, como quem não quer nada, eu ainda cravo a indagação ao Rafael, "¿quién carajo fue esa mina que tanto se mereció un poco más de amor?" Agregarei, também sutilmente, "piénsalo bien y ¡luego me contestás!" Se Murakami e Breton têm razão e as interações nos sonhos têm tanta realidade nas nossas vidas como os momentos mais, digamos, tangíveis, eu acho esta uma pergunta perfeitamente razoável.

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Vivien Lancellotti cresceu em São Paulo e Cingapura. Hoje vive em Ibiza e escreve romance sério demais permanecendo pálida dentro de sua casa enquanto os mais equilibrados vão à praia nos fins-de-semana.

www.vivienlancellotti.com


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