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  • Breno Longhi

O retrato de uma diva natimorta


Faz quatro anos da morte da Amy Winehouse e, ouvindo esta gravação de Back To Black​, não pude deixar de pensar na série britânica Black Mirror​, especialmente no capítulo "Fifteen Million Merits" (s01e02), em que uma moça de voz bonita é transformada em pornstar para ser consumida como um produto que funciona ao mesmo tempo como mecanismo de controle e válvula de escape dos desejos sexuais e pulsões de um público alienado e escravizado por um sistema hipercapitalista.

Eu sempre achei problemáticas – e até ingênuas – as leituras simplistas da cultura de massa, que ignoram a potência estética e formal de sua produção ao longo do século XX (foi mal, Adorno). E como estamos falando de música, também me parece uma tremenda bobagem atribuir às gravadoras uma capacidade quase onipotente de determinar o que pode e o que não pode fazer sucesso.

Entretanto, isso não significa que para estourar, o artista depende exclusivamente do seu talento. Quando o disco Back to Black foi lançado no fim de 2006, ele foi recebido por quase todo mundo como um sopro de ar fresco no pop, um retorno às raízes da Soul Music e do R&B que serviram de base para a construção de praticamente toda a música pop ocidental da segunda metade do século XX. O disco indicava o retorno das divas, das cantoras que não se resumiam só à técnica, mas que tinham emoção e criatividade.

É claro isso teria sido praticamente impossível sem a máquina marqueteira das gravadoras. A indústria fonográfica mostrava que não estava morta e que apesar de toda a pirataria do mundo, ainda podia produzir discos históricos e inovadores, capazes de mudar os rumos do pop. Ou pelo menos era isso que ela tentava desesperadamente provar.

Mas bastava observar a trajetória da cantora inglesa para ter a certeza de uma tragédia anunciada. Em 2003 ela lançou “Frank”, um disco bem competente, jazzeado e pop, que parecia uma continuação lógica da cena britânica do nova black music e do trip hop. Mas o negócio não emplacou como o esperado, apesar da voz linda e da alta qualidade da produção.

Depois de ser elogiada pela crítica “especializada”, a moça saudável acabou sumindo dos olhos do público por um ano e meio. Até que ressurgiu muito mais magra, com a maquiagem carregada, cheia de tatuagens, com uma cabeleira anos 60, bêbada e chapada, dando vexame em tudo que era balada, virando capa de tablóide... tudo isso antes de gravar seu maior hit.

“Rehab” foi lançado em setembro de 2006 e estourou nas rádios do mundo todo. O single era um testemunho da capacidade criativa de um ser humano torturado pelas circunstâncias e pelo amor e pavimentou o caminho para a galvanização do mito.

Não à toa, o disco vendeu seis milhões de cópias e foi o mais vendido de 2007. A crítica foi ao delírio e o álbum foi indicado em seis categorias ao Grammy, faturando cinco estatuetas.

Nos quase quatro anos que se seguiram, a coisa virou uma montanha russa e, olhando em retrospectiva, é difícil saber se o monstro criado pelo departamento de marketing da gravadora havia saído do controle, ou se tudo aquilo era parte de uma estratégia muito bem construída. Seja como for, sua morte aos 27 anos - aguardada, desejada e praticamente planejada – ajudou a colocá-la no seleto clube dos 27.

Ao lado de Kurt Cobain​, Jim Morrison​, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Brian Jones e Robert Johnson, a Amy Winehouse foi alçada ao panteão dos grandes artistas do pop que morreram prematuramente.

É aí que voltamos ao vídeo que serviu de mote ao texto.

Ouvindo essa versão acústica de Back to Black, o que eu vejo é uma cantora com a voz e os movimentos forçados, que obriga cada átomo do seu corpo a se conformar a uma personagem um pouco ridícula, uma clown triste que finge ser tão bêbada quanto a Billie Holliday, tão incompreendida quanto a Janis Joplin, tão poética quanto o Jimi Hendrix e diabólica como Robert Johnson.

Sobra muito pouco do mito sem o som pesado dos Dap-Kings, a banda que a gravadora emprestou (roubou) da Sharon Jones, sem a luz fraca e a cortina de fumaça dos palcos, sem o flash indiscreto dos tabloides.

No desespero de se manter viva e às vésperas de uma crise econômica e social que ainda está longe de chegar ao fim, a indústria fonográfica transformou uma moça de voz bonita em uma espécie de pornstar para ser devorada viva por uma fatia de público cansada de consumir versões aguadas da Madonna e ávida por uma válvula de escape para seus desejos e pulsões.

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Breno Longhi é cinegrafista da máfia, trocador de modelos em desfiles, radialista amador, faz bonecos de massinha e trabalha em casa como tradutor. De vez em quando cortam sua luz porque ele esquece de pagar as contas.

#crítica #música #cultura #BrenoLonghi

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