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  • Acauam Oliveira, César Takemoto

Do Amor Livre


Acompanho com interesse os textos sobre amor livre, assim como a vivência de amigos com coragem para fugir ao padrão normativo dos relacionamentos, encarando novas e complicadas questões subjetivas e políticas. Minha admiração e interesse são grandes, ainda que efetivamente tenha vivenciado exclusivamente amores monogâmicos. Aqui, contudo, adentra-se em um terreno a meu ver fundamental para a própria ideia de liberdade no amor: a possibilidade de se imaginar um amor livre e monogâmico. Mas é claro que uma monogamia desse tipo necessariamente irá romper com as expectativas que lhe são impostas. O amor como verdadeiro Acontecimento.

Foi pensando nesse conjunto de questões que lancei uma postagem no facebook a partir de minhas angústias e inquietações, que aos poucos, a partir da rede de comentários que foi se formando, adquiriu contornos de um texto colaborativo, texto livre, multi-vozes, poli-texto, que não deixa de ser também motivado pelo amor – “cabeças, mãos e corações pensando e pulsando juntos e separados, nos seus ritmos mais descompassados e tresloucados, encontrando harmonias e desarmonias”. Decidi então fazer uma pequena edição e transformar o conjunto de comentários em um texto colaborativo sobre a mais radical das formas de colaboração.

Pela possibilidade de um Amor Livre Monogâmico

Com relação aos textos que tenho lido sobre o assunto, a impressão geral é que a maioria são excelentes na análise, digamos, "biopolítica" das relações de dominação, pensando a monogamia enquanto mecanismo de gestão da opressão patriarcal, que atinge direita, esquerda, centro e até mesmo quem prega o amor livre mas que acaba reproduzindo a mesma coisa machista de sempre. Nesse campo, as análises que li são boas e bastante elucidativas. Entretanto, em certos momentos elas não deixam de soar "militantes" demais, pesando a mão no adjetivo "livre" que usam para qualificar o seu amor em oposição a "prisão" monogâmica. Ou seja, a monogamia é encarada exclusivamente como ideologia patriarcal, no sentido primário do termo, como se 1) a monogamia fosse (só) uma prisão. 2) como se desejo (ou amor) e liberdade não possuíssem um antagonismo de base, radical. O amor livre não transforma o desejo em realização: no máximo, multiplica as faltas, o que pode ser um bem, ou não. Sinto falta principalmente de uma teoria das pulsões nesses textos, um pouco mais de olhar para a construção subjetiva dos desejos, afinal, é de amor que se está falando, ao mesmo tempo uma construção social e um mecanismo de regulação das pulsões. Muita “liberdade” para pouco amor. Algumas questões que ficaram para mim após a leitura de uma série de textos em defesa do amor livre (e que são incômodos também em alguns desses) são as seguintes:

- a monogamia não é apenas uma prisão social, como sugere esse excelente texto que busca responder a TODAS as principais questões colocadas de uma perspectiva monogâmica (http://bit.ly/1x2OlR1). Ela é ao mesmo tempo, uma prisão psíquica e, como tal, uma forma de realização de fantasias fundamentais, que seguirão vivas no amor livre, talvez em formas patológicas menos neuróticas mas, ainda assim, patológicas.

- tanto na monogamia quanto no amor livre, "não existe relação sexual" (Lacan). E não é simples decidir qual dos dois movimentos consegue atravessar melhor esse fantasma. A monogamia faz disso o tabu fundamental: é porque a relação sexual não existe que é terminantemente proibido (não) realizá-la com outro. Mas o pressuposto do amor livre não será menos ideológico se partir do princípio de que é possível, sim, ter relações sexuais, desde que meu desejo não seja limitado pelas normas patriarcais, etc.

- a relação entre ciúme, posse e monogamia tende a ser muito estreita nesses textos. Como se o amor livre fosse um tipo de relação humana que superasse (sublimasse?) a fragilidade da própria constituição psíquica. Saímos da neurose para recair na psicose…

- os textos se preocupam demais em desmitificar a ilusão da monogamia, seu caráter ideológico. Mas a monogamia é talvez a ideologia que mais "sabe" da sua irrealidade, de seu caráter patológico, frágil, irreal. A ideologia monogâmica afirma ao mesmo tempo que 1) o amor de verdade é para sempre e fiel, e 2) que essa demanda é impossível. Ela regula as relações entre norma e transgressão (casamento e prostituição, por exemplo, são absolutamente necessários um para o outro), assumindo seu caráter ficcional de saída. A monogamia é uma forma de gestão da traição, seu avesso constitutivo. Daí certa ingenuidade em denunciar a falsidade das relações monogâmicas, que não cumprem o que prometem, pois o que elas prometem é justamente o seu avesso, a traição. O amor livre também precisa encarar o seu aveso, o oposto que lhe constitui (pode ser mais de um), assumindo seu caráter ficcional.

(aqui cabe um exemplo. O coletivo Relações Livres faz a seguinte afirmação nesse texto (http://bit.ly/1vDaodC) "Queremos o fim da miséria monogâmica. Liberdade para amar é incompatível com o número máximo de 1 da monogamia. Não toleramos subnutrição amorosa e carência afetiva; temos múltiplos amores, beijamos com prazer muitas pessoas e nos apaixonamos no plural". O pressuposto ingênuo é de que a monogamia REALMENTE leva a sério seus pressupostos, quando a força do contrato monogâmico está em ser um dispositivo que regulamenta ao mesmo tempo a norma e a exceção, a tal ponto que, na prática, ser monogâmico implica em ter "múltiplos amores", como uma espécie de prêmio (a perversidade está justamente aqui: todo mundo sabe que é uma farsa, mas só os homens tem o direito de assumir publicamente a ficção. As mulheres são obrigadas a manter a encenação, podendo inclusive ser "legitimamente" mortas caso não cumpram o seu papel). A monogamia depende estruturalmente da traição: ela “sabe” que não existe um único amor que supra integralmente as demandas impossíveis de nosso desejo. Ao colocar as outras demandas em termos de "traição", imediatamente cria-se uma hierarquia entre desejos legítimos e ilegítimos, que confirmam a excepcionalidade do amor legítimo que, a rigor, não existe. Falta à defesa do amor livre também um olhar mais complexo para o modo de funcionamento das ideologias).

- Desejo e liberdade não são termos necessariamente complementares, sobretudo porque o desejo comporta dimensões negativas profundas. Desejo é, sobretudo, falta. Nesse sentido, o livre fluir do desejo é muito mais um multiplicar-se em outras formas mil de aprisionamento – evidentemente delicioso, mas muito mais frágil do que parece ser o pressuposto desses textos. O desejo (monogâmico ou não) aprisiona o sujeito em uma relação de insatisfação permanente. A monogamia recalca esse vazio (o tabu da traição, por exemplo) e o gerencia por meio de mecanismos perversos de poder, mas isso não significa que ao amor livre seja possível "fugir" desse vazio. Livrar-se do tabu da traição, por exemplo, não torna as relações necessariamente menos vazias. O amor verdadeiramente livre tem que ter coragem para encarar a si próprio enquanto território da dor, não apenas pelos constrangimentos sociais (que são muitos, e só por isso já valeria a pena insistir na ideia), mas por aquilo que sua própria noção de liberdade produz.

- O fantasma inconsciente da monogamia é o vazio obscuro do desejo do Outro, o sexo, ao mesmo tempo nada (todo mundo trai) e tudo (mata-se e morre-se por isso). É uma forma de passar um pano e empurrar esse vazio para debaixo do tapete (ou para dentro do armário). Qual é o vazio fundamental que estrutura o amor livre? Só se escapa da reificação ao se encarar sem medo seus próprios fantasmas.

- A imagem mais poderosa de amor possessivo é ao mesmo tempo a imagem do mais puro amor, aquele que abre mão de todos os interesses até perder-se de si: o amor materno. Essa contradição está no núcleo das relações monogâmicas, para além das relações entre casais. Um amor que não faça distinção entre posse radical (o MEU filho) e doação absoluta (amar mais do que a si, para além do próprio desejo). Esse nó tem que ser encarado pela praxis do amor livre, pois não se dissolve pela “escolha” racional de um dos lados. Um dos limites desses textos é desconsiderar que para além do desejo, existe um gozo que lhe escapa. Gostaria de ler um texto sobre amor livre que não tratasse a monogamia como o grande Outro que justifica a sua existência como lugar da "verdadeira" liberdade, mas que fosse uma exposição mesma do processo de libertação desse Outro. Dor e prazer.

O casamento arranjado como ato livre

Tentemos um exercício de simples inversão de raciocínio, pensando o quão profundamente libertador é o casamento. O casamento é a possibilidade de regulação, a possibilidade de abrir mão do círculo desenfreado (alguns diriam, infernal) do desejo, de aceitar um limite e conseguir canalizar a libido para projetos muito mais interessantes do que a satisfação (em última instância impossível, até o Mick Jagger já sabia disso: "I can't get no..."). Hegel argumenta que o casamento é a união de duas pessoas em uma só pessoa, a abdicação de suas personalidades individuais e naturais que, entretanto, não possui apenas uma face de auto restrição, mas também de libertação. Libertação do que? Libertação de objetos parciais e patológicos, libertação da contingência da pluralidade de objetos amorosos a disposição. O casamento é o ato pelo qual a contingência do parceiro amoroso torna-se necessidade, e portanto nos permite escapar daquela contingência mesma. Hegel mostra o quão radical é ao dizer, inclusive, que o casamento ideal é o casamento arranjado, e não é difícil entender o porquê: o casamento arranjado não é vítima da falácia romântica de que nos casamos por amor, mas é a pura aceitação da contingência dos objetos amorosos e, portanto, da necessidade de se libertar deles...

Por outro lado, a melhor perspectiva que conheço para se pensar o amor como Acontecimento é do filósofo do Événement ele mesmo, Alain Badiou. Não faz muito tempo ele fez o que ele chamou de um "elogio ao amor" numa série de conferências em Avignon. Trata-se de tentar estabelecer o amor como uma construção de verdade. O que seria isso? A tentativa de experimentar o mundo a partir do dois, e não do um, ou seja, o mundo, examinado, praticado e vivenciado a partir da diferença, e não da identidade. O amor como projeto, que inclui o desejo sexual e suas experiências, mas pode incluir qualquer coisa, pois trata-se de viver uma experiência pelo prisma da diferença. E esse amor tem dois inimigos: a garantia do contrato de seguro – que eliminaria a contingência inerente ao amor –, e o conforto dos prazeres ilimitados. As premissas são, como não poderiam deixar de ser, lacanianas: como a relação sexual não existe – o tal "vazio" –, o que surge no lugar dessa relação é o amor. O encontro amoroso seria isso: "você sai em busca do outro para fazê-lo existir com você, tal como ele é."

Pausa: Duas pequenas incursões no cinema atual.

(Vários críticos viram no último David Fincher, 'Garota Exemplar' (Gone Girl), uma autópsia, em forma de thriller, do casamento. Mas o que é realmente chocante no filme é o seu final: depois de realizada a mais completa dissecção do casamento americano pós-2008 (feita, aliás, pelo ponto de vista duplo do casal), o cadáver se levanta da mesa de autópsia e sai andando como se nada tivesse acontecido... É sem dúvida o Grande Outro – como um Jesus que faz Lázaro levantar – que o ressuscita. Mas quanto tempo irá durar o milagre, ou, como afirmou um teólogo, será essa uma "ressurreição quer irá levar à morte" (de Jesus/Outro)?

O segundo exemplo, e resposta possível à pergunta acima, vem do argentino Damian Szifron, mais especificamente do último da série de curtas que compõem o seu 'Relatos Selvagens'. A história toda é uma festa de casamento standard da elite argentina. Para realçar o seu ridículo, basta dizer que o diretor utiliza cenas vindas quase que diretamente de um filme do Kusturica, numa animação tão febril quanto artificial. Mas é desse circo todo armado para a glória do Outro que advém a sua mais completa agressão. Ao descobrir que o noivo a traía com uma piranha do escritório, a noiva causa e destrói não só a sua outra, mas o círculo completo do Outro. No entanto, e paradoxalmente, o que nasce dessa destruição, também ela kusturicana, é um ato de amor, mais do que uma declaração. E é essa aposta no amor que fecha um filme todo ele imerso no puro espetáculo da guerra civil atomizada que é a Argentina contemporânea. Pode isso, Arnaldo? Si, se puede).

Eros, Filia, Ágape.

Seguindo o passo em toda essa discussão, me peguei pensando em como os gregos dividiam a noção de amor. Parece trivial, mas a existência de três palavras diferentes em grego consegue capturar e segregar coisas que talvez sejam de natureza diferente ou diferenciadoras. Assim, em grego existe o Eros, o Filia e o Ágape. Até onde eu sei, não existe uma palavra que englobe os três (um correspondente para "amor" em português). Os dois primeiros derivaram palavras em português (Erótico e Filho), enquanto o terceiro é bastante usado no universo religioso (cristão principalmente – tem até um disco do padre Marcelo). O Eros, como pode se imaginar, é o amor desejo, aquele que a meu ver tem características mais externas e internas ao mesmo tempo: externas porque joga diretamente com o contrato social, e internas porque trabalha ligado diretamente com o instinto e a libido. O Filia, é o amor de irmão, fraterno, ou de pai para filho, e é o mais "externo" dos três. Faz todo sentido ser o amor da autonegação, e é nessa relação que a ideia de fronteira entre 'o outro' e 'o eu' se perde e se estabelece o tempo todo. Ver 'o outro' como irmão ou como (principalmente) filho, é tentar neutralizar (mesmo que não totalmente) as fronteiras de identidade, sentimento fundamentado na ideia de que o parentesco (pelo menos no primeiro grau) é fundador de uma identidade comum. O filho, então é uma extensão. A pergunta é, porque essa extensão acaba se configurando mais importante que todas as outras partes ou até mesmo mais importante que o conjunto todo? Pensemos... Por fim, há o Ágape. Para os gregos, esse amor é o amor puro, o amor transcendental. Seria o mais “interno”, pois esse amor só pode ser auto-experienciável (mas qual não é?). Você "decide" que ama Deus (ou o divino, ou o universo, ou seja lá o que se coloque como central na questão da existência) e ponto. Ou, como muitas religiões colocam, Deus decide se revelar para você.

Os textos e discussões que vi sobre amor livre – e aqui posso estar sendo reducionista ou injusto, admito - sempre me soam como a tentativa de desenjaular o Eros do 'Amor', já que, cultural e linguisticamente a gente neutraliza os três (não na pratica, eu sei). Digo, as pessoas se sentem mal por não poder expressar o Eros em detrimento do Filia e do Ágape. A monogamia (e não entendo isso por casamento), pode existir em qualquer dos três amores. Uma relação social eficiente pode ser solo fértil para planos e sentimentos pessoais ou, no limite, para experienciar uma vida além sua. Agora falando sem medo de ser feliz: da mesma maneira que posso ter sentimentos por vários irmãos, posso estabelecer relação social com apenas um. O mesmo serve para religião. Posso ser monoteísta ou politeísta. Posso ser politeísta e rezar para um único Deus. E posso sentir desejo por várias pessoas, mas posso decidir com quantas e quais (qual?) quero desenrolar isso interna e externamente a mim.

Esse delírio infinito...

Como sustentar a fragilidade do desejo e do amor é a pergunta mais bonita e fundamental que poucos realmente fazem de forma profunda e consequente. A verdade do amor não existe e existe ao mesmo tempo? Acho fundamental criticar os textos que falam de amor livre ou que criticam a monogamia sem levar em consideração a camada psíquica (justo a mais profunda, mas não por isso a única, soberana e imutável) de formação do desejo e do amor erótico sexual (para não falar amor romântico). Desconfio que tem muito 'livre' e pouco 'amor' nessa história, ou seja, mais um caso de contestação ideológica que se torna nova ideologia. Contestar é só o primeiro passo, construir é muito mais demorado e aventuroso. Nessa hora, os grandes pensadores, os grandes teóricos da psicanálise e os grandes poetas vão lembrar aos desavisados que a fertilidade do solo encontra-se em outras paragens. Em outras viagens.

Fiquei pensando na possibilidade de se viver os paradoxos do amor como uma forma de sustentar a fragilidade da experiência amorosa e ao mesmo tempo sua possível verdade. Verdade na aceitação de sua ficção encarnada, na consciência de seu delírio. Delírio feito carne em cada célula de nosso ser, que morre e renasce a cada volta e reviravolta do ciclo do amor.

"O amor é primo da morte, e da morte vencedor / embora o matem, e matam-no, a cada momento de amor" (Drummond).

A consciência do delírio infinito e dos limites reais não resolvem o problema, mas podem ao menos tornar as relações menos idealizadas, ideológicas, equivocadas e superficiais, e permitir-nos vive-las com mais inteireza, intensidade e sinceridade (sejam elas monogâmicas, poligâmicas, pan-sexuais ou alienígenas). O fato de ser um problema sem solução é que torna o movimento do amor infinito, incansável, com suas iminentes mortes e renascimentos. E que nos faz ter prazer no delírio dolorido de simplesmente amar, não importa quem, como ou porque. Mas ao mesmo tempo nos faz querer aprimorar o delírio, estender sua duração no tempo e no espaço, torná-lo o mais verdadeiro possível, o mais encarnado possível, enraizá-lo em nosso ser, esse solo que voa.

Pensar num caminho em que consciência e aprendizado não excluam delírio e inconsciência (como na psicanálise), mas sim leviandade e superficialidade. Em que limite e liberdade convivam (como no existencialismo sartriano), em que haja liberdade em estar cativo. (Cativar, aliás, é uma ótima palavra para se lembrar os paradoxos do amor.) Sentir prazer é a maior liberdade, e isso só pode acontecer a partir de um corpo físico que nasce, respira, ama e morre. Amém.

#cultura #política #AcauamOliveira #CésarTekemoto #ThiagoCoutinho

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