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  • Camila Dias

Quando Eu Falava de Saudades Tórridas


Quando eu tinha uns 9 anos me lembro de um Carnaval em que meus pais decidiram pintar a casa. Nesta época eu ainda não tinha minha mala de fantasias e adereços, uma das posses mais importantes da vida - mas essa história fica pra uma próxima coluna - e o feriado era sinônimo de dias sem escola. Naquele caos em que móveis ocupam lugares que nunca foram seus, eu pulava incessantemente em um colchão na sala ouvindo "Paisagem da janela".

Incessantemente significa que eu só parava pra ir até o vinil, voltar a agulha até àquela faixa e pular cantando de novo. Não sei quantas vezes fiz isso, muito menos sei explicar porque aquela voz me hipnotizou tanto! Era um vinil de coletâneas do Milton de uma tia mais nova, perdido nos LPs de jovem guarda do meu pai, e eu não conseguia parar de escutar. Mais tarde, um amigo (um dos editores deste site!) me confessou que a mesma música também era uma de suas favoritas na infância e respiramos aliviados por termos nos salvado do "Ilariê".

Pulemos do colchão para 2005. Neste ano fui para o festival da UFMG com uma amiga de infância que eu acabara de reencontrar na vida adulta. O disco da viagem foi Clube da Esquina. Eu tinha acabado de ler "Os sonhos não envelhecem" e ainda tinha a sensação de que qualquer mineiro de 18 anos podia ser o Lô. Além disso, a primeira faixa do disco dava o tom daquele momento: recém-formadas, eu em Letras, ela em Música, em "Tudo que você podia ser" Milton e seu Clube falavam de nós e nossos clubes.

As faixas 2 e 3 eram um convite para nos jogarmos ao mundo: quem nunca quis pegar um Trem Azul e sair por aí ou saber a vez de se lançar de algum Cais?

Nas próximas faixas lá se vão mais dias, mais compassos, um vestido que dá saudade, uma cigana e seus temperos até se chegar a conclusão de que "Nada será como antes".

Clube da Esquina transpira saudade em cada letra, solo de piano, introdução de violão. Aquele tipo de saudade que sentimos quando algo ainda está acontecendo, quando já percebemos que aqueles momentos são tão únicos que, antes deles acabarem, já sentimos falta. Saudade dos pulos no colchão aos 9 anos, de sair de Minas pela primeira vez pra rodar cidades tocando, dos papos na porta da biblioteca da faculdade, do primeiro dia no estúdio pra gravar sua canção, daquela conversa com um amigo que te ensinou mais sobre poesia do que a aula de Literatura Brasileira, dos tempos nada inocentes da ingenuidade.

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Camila Dias é adepta do movimento "bailarina sem fronteiras" nas pistas de dança e sabe tocar duas músicas de cor na escaleta. É integrante da @bandaliterária e escreve no @jazmim_escritos

#musicapornaomusicos #música #CamilaDias

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