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  • Acauam Oliveira

Enfermaria


por Nana Alves

Pus o jaleco, pendurei a terceira-parcela-sem-juros do estetoscópio no pescoço, enfiei um martelinho no bolso, empunhei uma prancheta e entrei na enfermaria. Entrei para falar com o Seu José, e o plano era descobrir o que ele tinha, anotar num papel usando o máximo possível de siglas semi-incompreensíveis, entregar tudo p’ro Dr. Prof. Doutor e, com sorte, entrar de férias ali mesmo. Bingo.

- Seu José, tudo bem? Meu nome é fulana, posso conversar com o senhor?

- Claro, minha filha.

Mas Seu José era um paciente chato. Ele tinha a boca meio molenga, as beiças abriam de um jeito meio frouxo e depois caíam pegajosas em cima das consoantes, o que, sozinho, já acrescentava uns 10 anos aos 60 que ele alegava. Eu suava, o calor estava de matar. Será que dava praia amanhã?

- Me conta, Seu José, você procurou o médico por quê?

Seu José piscava devagar, respirava devagar, rolava devagar no leito para mudar a posição. Ele mostrou um tubo, que ele chamava de “essa borracha”, que enfiaram na barriga dele, saía do lado do umbigo e deveria ser ligado numa máquina. Quando perguntei por que puseram a “borracha” nele, ele respondeu melodioso:

- Iiiih, minha filha… sei não…

Mas ele soube me informar que não gostou da tal borracha. Que não disseram que ele teria que parar de trabalhar, que ele teria que passar horas por dia na tal da máquina, que ele sentia falta de fazer as coisas. Mas eu não precisava anotar isso. Eu queria saber se ele tava mijando/cagando/comendo/dormindo/vomitando. Consegue tomar banho sozinho ou tem falta de ar? Tem febre? Onde que dói?

Mas Seu José era um paciente muito chato. Ele não queria me dar minhas férias. Ele não sabia me dizer se era diabético ou não. Já passava de quarenta minutos que eu estava lá tentando arrancar qualquer verbete greco-latino que me aprovasse por mais um semestre e Seu José insistia em me contar histórias do trabalho, incidentes durante suas estadias em hospitais, como ele se sentia descartado agora que estava doente. Ele abortou uma pergunta que eu me preparava para fazer e disse:

- Você sabe o que é um homem arrasado?

Fiquei calada. Não olhei para o relógio porque já sabia que estava atrasada demais para ter esperanças de entregar mais de meia página escrita a tempo. Com o balde chutado, contemplei sinceramente a pergunta e me interessei em saber que resposta ele teria.

Então ele me contou com riqueza de datas e detalhes as circunstâncias da morte de seu pai, e de seu irmão, e por final, de seu filho mais velho. O do filho foi o pior, ele disse. Metade do corpo arremessada da moto, a outra metade presa à ferragem. O amigo que dirigia a moto perdeu metade do crânio (e ele disse: crânio). Uma mulher falava ao celular, entrou com tudo na curva, e foi isso. Meu filho mais velho. Você faz de tudo para um filho e, sabe? As lágrimas rolavam profusas.

O Dr. Prof. Doutor chegou na enfermaria, simpático, e pediu minha prova. Eu disse que não tinha nada pra entregar, ele estranhou, eu disse que explicaria depois, caso ele quisesse. (Não achava que ele quisesse.) O Dr. Prof. Doutor saiu visivelmente frustrado e eu voltei os olhos para meu paciente.

- O senhor acha que essas perdas que o senhor sofreu afetaram seu tratamento?

- Muito. Afetou muito. Eu não queria mais fazer nada, briguei com a família toda.

Eu baixei os olhos para o papel em que não constava mais que os dados pessoais. Seu José percebeu, ajeitou sua barrigona furada pela borracha e disse molemente:

- É… os médicos têm assim, uma objetividade, né? Parece que eles só querem saber aquilo que eles querem.

Eu agradeci Seu José e fui pra casa estudar.

Eu era uma médica muito chata.

(Nana Alves é formada em Grego Clássico pela Universidae de São Paulo e acaba de concluir o quinto período de Medicina na UFRJ. Ela trabalha por uma medicina mais "humanas".)

#convidado #crônica #NanaAlves

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