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  • Acauam Oliveira

A inflação está fora de controle no Brasil?


Por Rafael Bianchini

O que é inflação? A inflação está realmente fora de controle no Brasil?

Em qualquer economia, é normal que os preços variem de modo a ajustar a oferta e a demanda. Entre os fatores estruturais que influenciam os preços, podemos citar os aumentos de produtividade e aumentos de escolaridade, que tornam a mão de obra mais produtiva, e, portanto, permitem que as empresas produzam a um custo menor e o envelhecimento da população, que tende a aumentar a demanda dos serviços médicos e, por essa razão, encarece-los. Há também fatores conjunturais, como as secas e safras agrícolas, que influenciam os preços dos alimentos e desvalorizações da taxa de câmbio, que aumentam o preço dos produtos importados. Um Ipad, que custa aproximadamente 500 dólares, custava R$ 825 no início de 2011, quando a taxa de câmbio era de R$ 1,65 por dólar. Agora, com câmbio em torno de 2,60, custa R$ 1.300, aumento de 57,6%.

Como não é possível medir todos os preços de uma economia, são criados índices de preços, que medem a variação do custo de uma dada cesta de produtos. No Brasil, o índice mais usado é o IPCA, Índice de Preços ao Consumidor Amplo, calculado pelo IBGE. Ele toma como base os itens de consumo das pessoas que ganham de 1 a 40 salários mínimos nas 11 principais regiões metropolitanas do país. Há outros índices, como o INPC, Índice Nacional de Preços ao Consumidor, também calculado pelo IBGE nas mesmas regiões metropolitanas, mas que se baseia no consumo da população que ganha de 1 a 6 salários mínimos. A Fundação Getúlio Vargas calcula os IGPs – Índices Gerais de Preços, os quais, além de medirem a variação dos preços ao consumidor, também levam em conta os preços da construção civil e do atacado[1].

Os índices de preços refletem uma média. Assim, quando o IBGE informa que o IPCA acumulado nos 12 meses encerrados em novembro de 2014 foi de 6,56%, o Instituto está informando que, na média, os preços aumentaram 6,56% neste período. É natural que alguns preços aumentem mais que a média, outros aumentem menos e alguns preços caiam. A imprensa, ávida por manchetes que chamem a atenção e choquem o público, costuma dar destaque para os casos mais extremos, como ocorreu há algum tempo com o tomate, o que dá a falsa impressão de que todos os preços estão fora de controle[2]. Nos 12 meses encerrados em novembro de 2014, por exemplo, enquanto tangerina e limão aumentaram respectivamente 59,63% e 50,23%, a farinha de mandioca teve queda de 30,2%, o preço dos televisores caiu em média 12,57% e as passagens aéreas ficaram 9,15% mais baratas[3].

A inflação foi uma das maiores responsáveis pela brutal concentração de renda que ocorreu entre o final dos anos 50 e 1994, pois os mais ricos possuem maneiras de se proteger do aumento de preços, como aquisição de dólares e investimentos protegidos da inflação, que não estão acessíveis aos mais pobres. A inflação brasileira, já cronicamente alta, saiu do controle entre 1987 e 1994 e, por essa razão, houve sucessivos planos econômicos (Plano Cruzado, Cruzadinho, Bresser, Verão, Collor I, Collor II) que envolviam congelamento de preços e até confisco dos recursos financeiros depositados nos bancos.

Para termos uma ideia da magnitude do problema, a inflação acumulada nos 12 meses que antecederam o Plano Real foi de quase 5.000%, ou seja, em um ano os preços foram multiplicados por 50. Por essa razão, diversos economistas entendem que houve uma hiperinflação no Brasil. O inegável sucesso do Plano Real no combate à inflação garantiu a Fernando Henrique Cardoso a vitória no primeiro turno nas eleições de 1994 e 1998.

Por outro lado, também não se pode dizer que o oposto da inflação, a deflação, seja desejável. Isso porque a queda persistente nos preços está associada à depressão ou estagnação econômica, como tem ocorrido no Japão desde o início dos anos 90. Por isso, não é de surpreender que o governo japonês tenha anunciado recentemente a meta de aumentar a inflação para a ordem de 2% ao ano. Dito isso, é um consenso entre economistas que um nível moderado de inflação, algo entre 2% e 3% ao ano, é razoável e desejável.

No caso brasileiro, é fácil de entender que, em um país com o nosso histórico inflacionário, a sociedade como um todo tenha aversão a aumentos de preços e medo da volta ao passado. Isso foi bem explorado pelos partidos de oposição nas eleições. Mas entendemos que, apesar de o Brasil ostentar taxas de inflação acima do desejado, não vivemos descontrole inflacionário.

Em primeiro lugar, se analisarmos a inflação no Brasil a partir do Plano Real (Gráfico 1), observaremos que, entre o primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso e o segundo governo de Lula, o IPCA caiu de uma média de 9,7% ao ano para 5,1% ao ano. Expurgamos da base o ano de 1995, pois ele traria uma comparação injustamente desfavorável aos tucanos, já que o IPCA de 1995, de 22,4%, veio contaminado com a inflação do passado. No governo Dilma Rousseff[4] a inflação aumentou em relação ao governo Lula, mas ela segue inferior ao observado até a primeira metade dos anos 2000. Em grande medida, este aumento na taxa de inflação se deve a um importante ajuste na taxa de câmbio: o dólar estava cotado a R$ 1,65 no início de 2011 e neste momento se encontra cotado a pouco mais de R$ 2,60, o que por um lado encarece os produtos importados, mas também torna os produtos brasileiros mais competitivos nos mercados externos.

Fonte: IBGE

Como o governo Dilma Rousseff é uma continuação do governo Lula, a comparação mais adequada é entre os 7 anos de governo do PSDB (1996-2002) e os 12 anos de governo petista (2003-2014). Como podemos observar no Gráfico 2, a inflação anual média nos dois governos do PSDB (sem levar em conta 1995) foi de 7,4% ao ano, contra 5,9% dos três governos do PT.

Fonte: IBGE

Outra forma de se medir o sucesso ou fracasso dos governos em medir a inflação é pelo cumprimento das metas de inflação. Desde 1999, a autoridade monetária estabelece uma meta de inflação a ser perseguida pelo Banco Central do Brasil por meio da política monetária. Se a inflação sobe, o Banco Central aumenta a taxa de juros, tornando maior a remuneração da dívida pública e encarecendo custo do crédito. Com o crédito mais caro, as pessoas tendem a consumir menos. Outro efeito dos juros é no câmbio: quando os títulos públicos brasileiros oferecem juros altos, os investidores estrangeiros trazem recursos para o país. A maior oferta de dólares aprecia a taxa de câmbio, tornando os produtos importados mais baratos e, com isso, ajudando a baixar a inflação.

Como a economia está sujeita a choques que muitas vezes estão fora do controle da política monetária, como secas, chuvas e pragas que encarecem os alimentos, os países que adotam o regime de metas de inflação costumam adotar uma margem de variação dentro da qual se considera que a meta foi atingida. Desde 2006, a meta de inflação brasileira é de 4,5% ao ano, com margem de dois pontos percentuais para mais ou para menos, ou seja, considera-se cumprida a meta de inflação se o IPCA fechar o ano entre 2,5% e 6,5%. No segundo governo do PSDB, a meta de inflação foi cumprida em 1999 e 2000, índice de 50%. Nos onze anos de governo petista em que o cumprimento da meta pode ser avaliado, a inflação não ficou dentro da meta apenas em 2003, por causa dos reflexos crise cambial de 2002. Desde 2004, a inflação tem ficado dentro dos limites para a meta, resultando em um índice de êxito de 91%[5]. Portanto, se a base de comparação for o atendimento às metas de inflação, o governo petista também leva a melhor. Logo, apesar de persistentemente alta e próxima do teto da meta (6,5%) há um bom tempo, a inflação brasileira não está fora de controle. A mediana das previsões dos agentes do mercado financeiro para 2015 é de 6,5%, no limite superior da meta de inflação. Portanto, apesar de o Brasil ter um nível de inflação desconfortável, estamos longe de um descontrole inflacionário como o que tivemos até o Plano Real.

Mais do que isso, o comportamento da inflação brasileira não é um fato isolado. Em uma perspectiva mais ampla, a combinação da crise financeira internacional, que resulta em crescimento mais baixo da economia, e mudanças estruturais na sociedade, como a ascensão de uma classe média urbana, tem levado diversos bancos centrais de países emergentes à flexibilização o regime de metas de inflação (Gráfico 3). A inflação acumulada nos 12 meses encerrados em agosto de 2014 foi de 6,5% no Brasil, inferior ao observado na Turquia (9,5%), Uruguai (8,8%), Rússia (7,6%) e Índia (6,8%) e pouco acima da inflação da África do Sul (6,4%) e Costa Rica (5,5%). Claro que há países que ostentam taxas de inflação significativamente mais baixas que as nossas, como Peru (2,7%), China (2,1%) e Coreia do Sul (1,4%), mas eles estão longe de ser a regra entre os emergentes. Propositadamente, Argentina e Venezuela estão excluídas da análise, pois ambos possuem inflação de mais de 20% ao ano e não são uma boa referência, pois vivem processos inflacionários agudos sem uma solução no curto-prazo.

Fonte:

http://pt.global-rates.com/estatisticas-economicas/inflacao/inflacao.aspx

http://www.bcu.gub.uy/Paginas/Default.aspx

http://www.bccr.fi.cr/

Em suma, associar o aumento recente da inflação brasileira com aquilo que tínhamos antes do Plano Real é uma estratégia oportunista de alguns partidos da oposição ou de lobistas com interesses em futuros aumentos da taxa Selic. Apesar do discurso catastrofista, é altamente provável que em 2014 o IPCA termine dentro dos limites estabelecidos pelo regime de metas de inflação pelo décimo primeiro ano consecutivo. Finalmente, a recente alta da inflação é um fenômeno alinhado com o que ocorre em diversos países emergentes e em grande medida decorre de um ajuste da taxa de câmbio ocorrido no governo Dilma.

(Rafael Bianchini Abreu Paiva possui bacharelado em economia pela Unicamp e em direito pela USP. Atualmente, é analista do Banco Central e cursa mestrado em Direito pela USP, com pesquisa na área de derivativos financeiros.)

[1]http://www4.bcb.gov.br/pec/gci/port/focus/FAQ%202-%20%C3%8Dndices%20de%20Pre%C3%A7os%20no%20Brasil.pdf

[2] http://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2013/04/10/inflacao-marco-ibge.htm

[3]ftp://ftp.ibge.gov.br/Precos_Indices_de_Precos_ao_Consumidor/IPCA/Resultados_por_Subitem/ipca_201411Subitem.zip

[4] A inflação de 2014 será conhecida no início de janeiro. Para fechar a média do governo Dilma, utilizamos a projeção do Boletim Focus de que o IPCA encerrará 2014 em 6,48%. Para mais detalhes, ver http://www.bcb.gov.br/pec/GCI/PORT/readout/R20141205.pdf

[5] http://www4.bcb.gov.br/pec/gci/port/focus/FAQ%2010-Regime%20de%20Metas%20para%20a%20Infla%C3%A7%C3%A3o%20no%20Brasil.pdf

#convidado #economia

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