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  • Acauam Oliveira

Civilização, Barbárie e Religião em uma Universidade do Interior


por Breno Longhi

Às vezes, o obscurantismo se revela justamente onde ele mais deveria ser combatido.

Nesta semana o Conselho Municipal de Segurança Pública de Viçosa, Minas Gerais, e o Observatório Social Interdisciplinar da Universidade Federal de Viçosa divulgaram o Mapa da Segurança Pública da cidade. Como se espera de um relatório dessa natureza, os pesquisadores traçam paralelos entre os tipos de violência e suas vítimas, revelando grupos e regiões em situação mais vulnerável.

Na seção dedicada a descrever as vítimas, chama a atenção a inclusão de dados sobre sua religião, como se suas práticas íntimas pudessem influenciar a criminalidade e a vitimização. Imaginei o ladrão que só furta o aparelho celular esquecido sobre uma mesa de padaria ao descobrir se o dono é evangélico ou hare krishna; ou o assaltante esotérico que aponta a arma para uma pessoa em uma rua isolada e grita: Me diz o nome do seu anjo da guarda ou eu te mato!

O texto analisa casos de roubo, furto, ofensa sexual, agressão e acidentes de trânsito e afirma que: “Em todos os tipos de vitimização analisados a maioria das vítimas segue a religião católica romana. Cabe, no entanto, destacar o elevado percentual de evangélicos (25%) e de ateus (10%) entre as vítimas de ofensas sexuais e o elevado percentual daqueles que creem em Deus, mas não tem religião (24%) entre as vítimas de roubos.” É, não está fácil pra ninguém.

Preferi imaginar que a inclusão desse tipo de dado fosse praxe e que os pesquisadores não seriam levianos a ponto de estabelecer relações de causa e consequência com base na religião das vítimas. Contudo, na seção intitulada Fatores Determinantes da Vitimização, a ingenuidade (desonestidade intelectual?) dos autores se tornou aparente, atribuindo às vítimas a prevenção da violência. O relatório afirma: “(...) o seguinte fator se destaca enquanto preventivo da vitimização: pessoas que tem a rotina de sair para realizar atividade religiosa, mística ou filantrópica.”

Daí em diante as intenções do texto vão se tornando mais claras. Na seção dedicada à análise dos fatores determinantes para os roubos na cidade o relatório diz que: “A análise dos fatores determinantes da vitimização por roubo evidenciou que: (i) aqueles que crêem em Deus, mas não possuem religião apresentam 143% de chance a mais de serem vítimas de roubo do que aqueles que são adeptos do catolicismo e (ii) aqueles que saem para bares ou casas noturnas possuem 93% de chance a mais de serem roubados em relação aos que não saem.”

Ok. Em outras palavras, basta que eu fique em casa e seja católico para não ser roubado?

Mais adiante, a participação em eventos de cunho religioso aparece como fator preventivo contra praticamente todos os tipos de violência registrados na cidade. Por exemplo, se um indivíduo não quiser ser agredido, “os seguintes fatores se destacam enquanto preventivos da vitimização: (ii) não ser branco e a (ii) participação em grupo religioso.”

Curiosamente, os autores se esquecem de analisar os fatores determinantes da violência sexual, embora destaquem que 63% as vítimas são católicas, 25% evangélicas e 13% “outros”.

Em meio a uma série de dados relevantes sobre a percepção dos viçosenses em relação à segurança pública, à atuação das polícias civil e militar na cidade e à comparação com as médias de criminalidade nacionais e estaduais, a inclusão desse tipo de dado para a análise da conjuntura revela o elevado grau de enviesamento da pesquisa, colocando em xeque a credibilidade dos dados e dos próprios pesquisadores.

Ao invés de analisar os fatores que levam à criminalidade e estabelecer vias de ação para o poder público – que os próprios dados mostram ser ausente –, o relatório criado por um órgão afiliado a uma universidade federal responsabiliza a população pela prevenção dos crimes, culpabiliza as vítimas e, o que é pior, estabelece uma relação mística entre a vitimização e os hábitos religiosos e íntimos de cada um.

A cereja do bolo fica por conta do parágrafo final: "O papel preventivo ocupado pela participação em atividades religiosas ocupa aqui um espaço significativo, seja promovendo a segurança derivada da convivência em grupo, onde uns passam a se preocupar e cuidar dos outros, seja em função da difusão de uma perspectiva de vida onde a pessoa passa a se preocupar com os problemas coletivos e a se comportar de maneira mais próxima e com respeito em relação ao outro desconhecido, ou seja, em função de que a pessoa religiosa tem hábitos de lazer que a colocam menos em vulnerabilidade para o criminoso".

Nesta universidade do interior, não são raras as ocasiões em que palestras e reuniões de cunho intelectual e científico sejam antecedidas por orações e sermões religiosos, seja por parte de professores, funcionários ou alunos. Ainda assim, é difícil conceber que subsista na academia brasileira o tipo de obscurantismo capaz de continuar atribuindo as mazelas de uma sociedade desigual e violenta à falta de religião e espiritualidade.

#crítica #política #BrenoLonghi

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