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  • Acauam Oliveira

Idelber Avelar e o oximoro virtual da resistência


por César Takemoto

Idelber Avelar é conhecido entre amigos por certa teoria sobre figuras da retórica. De acordo com ele, a figura retórica (ou tropo) mais caracteristicamente brasileira é o oximoro (em comparação com figuras como o antagonismo, digamos, na Argentina). Cito-o. É uma pérola:

O Brasil é um país em que a independência ante Portugal foi proclamada por um português,

a República foi proclamada por um monarquista,

o mais radical movimento igualitário foi liderado por um pregador moralizante e religioso,

a Revolução Burguesa foi feita pelas oligarquias,

a eleição republicana-moderna (1930) teve sufrágio mais restrito que a eleição monárquica-imperial (1821),

o mais ilustre gesto de um presidente foi um suicídio,

o racismo é encoberto por um termo ('democracia racial') inaugurado em público pelo maior líder do movimento negro,

a subvenção pública e a estatização floresceram na ditadura de direita,

a redemocratização foi presidida por um homem da própria ditadura,

a discriminação racial é mais visivelmente proibida justo no lugar onde ela mais obviamente se manifesta,

só se removeu por corrupção o presidente cuja única plataforma eleitoral era varrê-la,

a maior privatização foi feita pelo príncipe da sociologia terceiromundista e esquerdizante,

a universalização do capitalismo e o auge dos lucros bancários se dão sob o líder sindical que fundou um partido socialista e ....

numa Praça Tiradentes não há estátua de Tiradentes, mas de D. Pedro I, neto da Dona Maria que ordenara a morte do alferes.

Essa incongruência não diz algo sobre o que somos?

Não é interessante como tudo leva a crer que ele mesmo seja a maior atualização-exemplo da própria teoria? Ao final, numa bela virada autorreflexiva e irônica, ele poderia acrescentar: “Professores de esquerda, simpatizantes do feminismo, são machões vorazes e pervertidos comedores de mulheres ‘indefesas’”.

Ele seria assim as duas coisas, um professor afinado ao campo da “resistência” acadêmica e um predador sádico dos mais fracos (ou das mais fracas), ao mesmo tempo e no mesmo mundo virtual, separados muito provavelmente apenas por uma aba na tela de seu laptop.

Tiro duas lições do caso:

  • Ele articula a verdade da ideologia da “resistência” acadêmica, artística e política hoje: um jogo de sadomasoquismo continuado, cheio de inversões, algumas imprevistas e inconfessáveis porque podem ter consequências materiais e morais óbvias. O Caso Idelber expõe bem a solidariedade entre certa identificação masoquista de esquerda com a figura do “resistente” – os oprimidos de maneira geral (mulheres, guaranis-kaiowá, jovens negros, homossexuais etc.) – e as fantasias sádico-obscenas que lhe sustentam. Pois se há um gozo inconfessável que sustenta a posição subjetiva do resistente, há um gozo bem mais confessável do lado do poder, cujo sadismo é recompensado a cada golpe da polícia. A complementaridade dos dois polos é dada pela maneira como os dois gozos se retroalimentam. Lembro aqui a maneira como, quando das Jornadas de Junho de 2013, na manifestação anterior à do dia 13, um colega me instigou a comparecer: "Vamos apanhar hoje da polícia?" De certa maneira tanto os manifestantes quanto a polícia sabiam que haveria uma repressão mais ou menos brutal, sabiam seus respectivos papéis para o teatro político daquele dia [1].

  • A maneira como o professor operava na realidade virtual em relação às suas “vítimas” jogava com certa tensão em relação à realidade concreta, com a possibilidade de um encontro, com certa perspectiva de realização. Essa lógica é muito similar à maneira com que nós estudantes fazemos com afinco e determinação nossas démarches acadêmicas com o intuito de, quem sabe um dia, receber reconhecimento, em suas mais variadas formas sociais hoje disponíveis, ou mesmo realizar algo de relevante no mundo social. Tanto uma como outra lógica são muito similares à própria lógica do capital financeiro na atualidade. Por quê? Porque no capitalismo contemporâneo, o aspecto virtual do capital financeiro – que funciona tomando capital emprestado do futuro (C-C, na fórmula de Marx) – é o aspecto determinante, Real, da realidade social como um todo. Negar a efetividade desse Real virtual equivale a dizer que a própria realidade dará cabo da alienação do capital em relação às necessidades sociais reais. Essa é contudo a própria ideologia do capital financeiro contemporâneo, a de que ele trabalha servindo as necessidades reais das pessoas reais[2], ignorando assim a própria (semi)autonomia do Real em relação à realidade, o excesso fundamental do primeiro em relação ao segundo.

Assim como o domínio do capital é da esfera do virtual-Real como tal, vivendo do trabalho potencial a ser extraído do de trabalhadores virtuais futuros, a resistência como ideologia também se legitima através do Real do sofrimento extremo (da tortura, do extermínio etc.) e, portanto, vive do corpo do morto ou do morto-vivo do corpo torturado. A resistência é, aqui, usada como moeda de troca simbólica na autolegitimação ética do militante, do intelectual e do político.

Torna-se assim visível uma divisão (bio)política dos corpos, devidamente partilhados entre direita e esquerda, o sadomasoquismo sua linguagem comum.

[1] No cinema brasileiro, poucos exploraram essa relação de maneira tão sistemática quanto Sergio Bianchi. Lembrem-se como em Os Inquilinos , o protagonista Valter “resiste” civilizadamente ­à proximidade assustadora dos novos vizinhos criminosos, enquanto obscenamente fantasia ser um animal defendendo seu território. Mas em Bianchi há um complicador talvez mais subversivo: protegendo mulher e filha do olhar ameaçador do outro, e sem nenhum sentimento coletivo, Valter acaba por sucumbir acuado ante os próprios olhares femininos, que lhe tiram o chão...

[2] Slavoj Zizek, Less than Nothing, Nova York/Londres: Verso, 2012, pp. 244-5.

#cultura #crítica #CésarTekemoto

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