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  • Acauam Oliveira

Para onde vai, Chespirito?


por Breno Longhi

Quando eu era criança, minha casa ficava no fundo da loja dos meus pais em Sorocaba. O responsável pelas refeições era o meu pai, que me preparava para ir à escola e me dava de comer. Desde que consigo me recordar, realizávamos quase religiosamente o mesmo ritual: nos sentávamos no sofá da sala, de frente para a TV, ele colocava um guardanapo em volta do meu pescoço para não sujar meu uniforme, picava a comida e me dava uma garfada atrás da outra, até o prato ficar vazio. Acho que nunca dei trabalho para comer, porque fazíamos isso assistindo Chaves e Chapolim todos os dias.

Os anos foram se passando e eu já devia ter uns 10 ou 11 anos. Um amigo da escola apareceu em casa bem na hora do almoço e presenciou o ritual. Ele riu de mim, porque eu já era grande para que meu pai me desse de comer. No dia seguinte, falei que preferia comer sozinho e meu pai respondeu: “Cara, se eu não te der a comida, não vou ter desculpa pra assistir o Chaves”.

O ritual continuou se repetindo por mais um ano.

Muito tempo depois, eu havia ingressado no curso de Letras da Universidade de São Paulo e dedicava meus estudos à análise e à leitura de autores brasileiros contemporâneos. Mas uma coisa me incomodava muito. Era difícil encontrar naqueles livros a universalidade das grandes obras literárias.

Um dia, por acaso, achei em um sebo do centrão uma edição muito bonita do Lazarillo de Tormes, uma novela picaresca publicada na Espanha em 1554 e que conta – muito resumidamente – as aventuras e desventuras de um menino de rua e suas relações com a sociedade espanhola da época. O livro estava em espanhol e eu achei que seria um texto difícil, mas resolvi me aventurar.

Depois da quinta página, não conseguia mais largar o livrinho e já nem percebia mais o fato de ele ter sido escrito em uma língua estrangeira e há quase 500 anos. Eu estava no ônibus voltando para casa quando cheguei à passagem em que Lazarillo estava vivendo no casarão de um nobre falido, onde não havia camas, nem dinheiro, nem o que comer. Os dois se apoiavam um no outro para sobreviver e assim se encaminhavam os dias.

Por um golpe de sorte, o amo de Lazarillo conseguiu algum dinheiro e resolveu que naquele dia iriam tirar a barriga da miséria. Lazarillo recebeu moedas e um jarro para o vinho, e saiu correndo da casa em direção ao mercado.

"Toma, Lázaro, que Dios ya va abriendo su mano. Ve a la plaza y merca pan y vino y carne: ¡Quebremos el ojo al diablo! Y más, te hago saber, porque te huelgues, que he alquilado otra casa, y en esta desastrada no hemos de estar más de en cumplimiento el mes. ¡Maldita sea ella y el que en ella puso la primera teja, que con mal en ella entre! Por Nuestro Señor, cuanto ha que en ella vivo, gota de vino ni bocado de carne no he comido, ni he habido descanso ninguno; mas ¡tal vista tiene y tal obscuridad y tristeza! Ve y ven presto, y comamos hoy como condes."

Mas como alegria de pobre dura pouco, Lazarillo encontrou no meio do caminho um féretro que trazia o corpo de um homem e era acompanhado por sua esposa em prantos.

Tomo mi real y jarro y a los pies dándoles priesa, comienzo a subir mi calle encaminando mis pasos para la plaza muy contento y alegre. Mas ¿qué me aprovecha si esta constituido en mi triste fortuna que ningún gozo me venga sin zozobra? Y ansí fue este; porque yendo la calle arriba, echando mi cuenta en lo que le emplearía que fuese mejor y mas provechosamente gastado, dando infinitas gracias a Dios que a mi amo había hecho con dinero, a deshora me vino al encuentro un muerto, que por la calle abajo muchos clérigos y gente en unas andas traían. Arriméme a la pared por darles lugar, y desque el cuerpo paso, venían luego a par del lecho una que debía ser mujer del difunto, cargada de luto, y con ella otras muchas mujeres; la cual iba llorando a grandes voces y diciendo: "Marido y señor mío, ¿adónde os me llevan? ¡A la casa triste y desdichada, a la casa lóbrega y obscura, a la casa donde nunca comen ni beben!"

Yo que aquello oí, juntóseme el cielo con la tierra, y dije: "!Oh desdichado de mí! Para mi casa llevan este muerto."

Dejo el camino que llevaba y hendí por medio de la gente, y vuelvo por la calle abajo a todo el mas correr que pude para mi casa, y entrando en ella cierro a grande priesa, invocando el auxilio y favor de mi amo, abrazándome del, que me venga a ayudar y a defender la entrada. El cual algo alterado, pensando que fuese otra cosa, me dijo: "¿Qué es eso, mozo? ¿Qué voces das? ¿Qué has? ¿Por qué cierras la puerta con tal furia?"

"!Oh señor - dije yo - acuda aquí, que nos traen acá un muerto!"

"¿Cómo así?", respondió él.

"Aquí arriba lo encontré, y venía diciendo su mujer: Oh Marido y señor mío, ¿Adónde os llevan? ¡A la casa lóbrega y obscura, a la casa triste y desdichada, a la casa donde nunca comen ni beben! Acá, señor, nos le traen."

Y ciertamente, cuando mi amo esto oyó, aunque no tenía por qué estar muy risueño, rió tanto que muy gran rato estuvo sin poder hablar. En este tiempo tenía ya yo echada la aldaba a la puerta y puesto el hombro en ella por más defensa.

Ao lado dessa passagem genial, rabisquei com lápis a palavra: CHAVES. Era uma cena digna dos melhores momentos o Chaves e o Seu Madruga.

Nessa cena de humor pueril - magnificamente construída a partir do embate entre a miséria humana e os lances do acaso - encontrei a universalidade que tanto procurava e, finalmente, percebi por que, assim como meu pai, tantas outras pessoas faziam questão de almoçar em frente à TV diariamente. O que o Chespirito fazia era grande literatura. O Chaves era universal.

Com as histórias do menino pobre que vivia de favor entre o que restava de famílias desestruturadas (Kiko sem pai, Dona Florinda, sem marido, Seu Madruga sem mulher nem emprego, Chiquinha sem mãe, Seu Barriga sem amigos e a Bruxa do 71 sem ninguém), em meio à falta de dinheiro, de comida e de meios, Chespirito uniu a América Latina como nenhum outro artista foi capaz de fazer.

Por trás de uma camada fina de piadas bobas e humor físico, o Shakespearezinho mexicano escondia uma melancolia e uma dureza que calavam fundo em toda a classe média de um continente. Com seu herói picaresco de sorriso triste, ele presenteou a todos nós com o riso solto de quem reconhece os absurdos da vida, da morte e das misérias compartilhadas.

Adónde os llevan Chespirito?

Lazarillo de Tormes

#tv #cultura #literatura #BrenoLonghi

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